Newsletter_ Cartas Celestes

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Olá! 

Se você está recebendo este email é por que me conhece ou entrou em contato comigo, fez um curso ou buscou leitura de mapa astral. 

Esse ano percebi que, para mim e muita gente, a internet, as redes sociais, o celular, viraram um espaço de ansiedade – ladrões de tempo.

Pensar astrologia a partir de uma perspectiva po-ética envolve criar outras relações com o tempo. Desejo tecer outras redes e tramas de comunicação, cultivar conversas mais artesanais com as pessoas.

Cartas Celestes é a maneira que encontrei de manter essa conversa por e-mail. 

Uma espécie de newsletter, um folhetim online astrológico e poético. 

O tempo atual traz muitas camadas de adoecimento coletivo – dos corpos, da terra, do ar, da mente… Por isso nessa primeira Carta Celeste ofereço o Dossiê Poético de Quíron – uma curadoria de arte e literatura para mapeamentos curativos.  

Atualmente Quíron está caminhando por Áries e traz como assunto a prática do cuidado, a perda e criação de novos sentidos, como manter a chama acesa, como reconhecer a fragilidade, o tempo das coisas, como criar outros futuros que não partam da brutalidade… Neste contexto de pandemia e adoecimento político Quíron pode ser imagem-ferramenta para cuidar do que é pessoal e coletivo, encontrar potência a partir do que se esgotou.

Estou disponível para trocas, perguntas, impressões.

A próxima carta virá em janeiro.

Um abraço, Julia Francisca.

Saturno e Júpiter em Aquário: potências e ferramentas para 2021

por Julia Francisca

Como imaginar outros futuros a partir das fissuras de um sistema em ruínas? Como aprender com as plantas e fazer brotar vida das rachaduras do asfalto? Não venho aqui fazer um texto de previsões ou leituras para o ano e sim um texto que traga as potências e ferramentas das efemérides atuais. Quero que esse texto seja um sopro de ar aquariano, um convite para encontrar nova vida a partir dos rasgos produzidos na Terra.

2021 é marcado pelo encontro de Júpiter e Saturno em Aquário, encontro que acontece a cada vinte anos e que inaugura um grande ciclo de conjunção desses planetas em signos de ar. São ciclos longos e coletivos que atravessam gerações – e por isso sua importância astrológica. Não acredito em destinos pré-escritos ou em qualquer espécie de previsão, acredito na força do devir que sempre traz o novo e a diferença. Por isso, olhar esses ciclos numa perspectiva po-ética da astrologia não tem função de trazer respostas, mas de pensar nosso lugar diante de movimentos coletivos e planetários. Podemos aproveitar o céu apenas como um pré-texto e criar novas leituras e narrativas a cada vez. 

Vamos então honrar Aquário, signo do questionamento e insubmissão, e deixar de lado o anseio por leituras determinadas. Seu símbolo é o aguadeiro, mãos humanas que despejam água. Uma imagem-metáfora para o desdobrar dos processos, para o que está em aberto, o porvir das coisas. Capricórnio, signo de terra que o antecede, fala do cultivo e dos recursos, das estruturas e concretudes, da organização dos sistemas ao longo do tempo. Aquário é o sopro de ar que vem em seguida. Quando se chega ao topo da montanha ou no limite de algo, o único caminho é descer e pensar de novo, e criar outros sentidos para a realidade.

Aquário pergunta: para onde queremos ir daqui pra frente? De qual maneira? Como vamos nos organizar coletivamente para isso? 

Júpiter e Saturno na astrologia falam de princípios opostos, mas que se complementam: Júpiter é o espírito jovem, Saturno, o velho. Com um temos a expansão, com o outro; o recolhimento. Abundância e limite, imaginação e concretude, tempo da sincronicidade e tempo cronológico caminham juntos no céu de agora. Qual a fartura que podemos colher em tempos de escassez? Como o princípio da imaginação pode andar de mãos dadas com o princípio da concretude?

Os últimos anos foram marcados por grandes mobilizações celestes no signo de Capricórnio. Plutão, deus do mundo dos mortos, ainda continua sua passagem lenta por este signo. Podemos criar leituras sobre as crises econômicas e políticas a partir daí se quisermos. Velhos sistemas se despedaçando, a perversidade do capitalismo-fascismo escancarando os dentes, os donos do poder usando violência extrema para manter as estruturas de opressão, a morte em massa de pessoas e biomas, extinção de várias formas de vida… 

É possível imaginar outras formas de organização a partir das convulsões de antigas estruturas? Na passagem de Júpiter e Saturno para Aquário, o princípio da imaginação e do criar sentidos de Júpiter se junta com o lugar estrutural e construtor de Saturno. Como podemos nos articular coletivamente de outras formas? Como o dinheiro pode circular de outras maneiras? Qual nosso papel dentro dessa trama das estruturas humanas e ecológicas? De quais formas queremos nos articular? Com quem queremos nos associar? 

Como fazer usos mais libertários da tecnologia? 

A pandemia, o adoecimento global, acentuou um pensamento planetário ao mostrar que respiramos o mesmo ar e precisamos pensar em soluções coletivas. Como defender o SUS? O que podemos fazer coletivamente diante dos bilionários, dessa meia dúzia de pessoas-famílias que comandam o mundo? Concentração de renda nunca antes vista que leva a população de pessoas, animais, vegetais, minerais, nuvens em direção a miséria. Como combater esses poderosos que se importam tão pouco com a vida? Como resistir a um projeto genocida em larga escala, de supremacistas e extrema-direita que não querem dividir o planeta com ninguém que não seja parecido consigo? Como afirmar o valor do novo e da diferença?

Saturno nos ensina que só podemos andar a partir do chão que pisamos e não de um lugar fantasioso. Devemos sempre partir do lugar que estamos, com os recursos disponíveis, reconhecendo as limitações que temos. Essa é a sabedoria do mestre-tempo Saturno-Cronos. Paralelamente, com Júpiter podemos encontrar oportunidades a partir do reconhecimento das rachaduras. Aprender a cavar buracos nessas estruturas em ruínas para produzir a novidade, a diferença. Como podemos aprender com as plantas insubordinadas que brotam nas rachaduras do concreto? 

Aquário muitas vezes é retratado como o signo dos ideais. Pra pensar a potência deste signo proponho o deslocamento dessa ideia colonial, racionalista, de um ideal separado do corpo e da experiência. Saturno em Aquário pode falar disso também, ao invés de pensar em ideal metafísico, em sonhos de fuga da realidade, podemos pensar na imagem do horizonte e da caminhada. Se Aquário é o aguadeiro, o escorrer da vida, podemos pensar em termos de processo, de caminhada, e pra caminhar miramos o horizonte… 

A perspectiva de processo  já se abriu em Capricórnio e em Aquário vislumbra o inédito, o que não conhecemos, a diferença. O horizonte permite caminhar em frente e ter um ponto de referência para olhar o ambiente e território que estamos. Conseguiremos abrir trilhas e desvios nessa caminhada? Como encontrar as ferramentas e recursos de Saturno ao mesmo tempo em que alimentamos a imaginação jupteriana? Como reconhecer a gravidade dos fatos sem deixar de sonhar o fim do capitalismo, o fim do fascismo? 

Júpiter é um planeta que traz como tema a produção de sentidos e significados, por isso sua passagem por Aquário pode nos convocar a não nos deixar abater pelas narrativas genocidas, necropolíticas. Para honrar os tempos de agora, precisamos tomar para si furiosamente a narrativa, não cair na complacência, na melancolia. Não cair na pulsão de morte que diz que é melhor morrer cedo porque não vai ter aposentadoria. Não cair na pulsão de morte que quer apenas uma aglomeração na praia antes que tudo se acabe. 

Prece para Saturno e Júpiter em Aquário: que o sonhar e o fazer sejam soprados pelo ar da liberdade. Que possamos defender o pensamento, a produção de conhecimento, construir narrativas coletivas em defesa da vida. Que possamos afirmar a diferença todos os dias. Aprender com o passado e seguir em direção a emancipação coletiva. Que um novo mundo possa surgir da nossa imaginação potente e insurgente.

Curso online Lua e os 4 elementos

Curso online de arte e astrologia poética com Julia Francisca.
Astrologia poética é uma abordagem que trata astrologia como linguagem artística e sensível, não determinista. Neste curso as imagens da Lua e dos quatro elementos vão servir de ponto de partida para exercícios de criatividade e de auto-reconhecimento, auto-mapeamento. A Lua na astrologia é metáfora para a intimidade, a casa, o espaço interior. A proposta do curso é investigar o habitar, as poéticas da casa, do espaço, do corpo, dos territórios que habitamos.

  • Aberto para QUALQUER pessoa com experiência ou não em arte ou astrologia.
  • AULAS AO VIVO via zoom dias 18, 19, 25 e 26 de julho
  • Sábados e domingos, das 20h às 22h
  • Espaço para perguntas via chat durante a aula
  • As aulas ficam gravadas e disponíveis até outubro
  • Quem se inscrever vai receber E-BOOK com material exclusivo
  • Todas as aulas acompanham exercícios simples de colagem, foto e escrita

CRIAÇÃO DE LIVRO ONLINE COLETIVO – depois das aulas quem quiser poderá enviar as suas criações para fazer parte de uma publicação sobre Lua e os quatro elementos. Prazo para enviar as criações dia 16/08, lançamento online dia 24/8.

PAGAMENTO
A contribuição é consciente e deve ser realizada por transferência bancária.
Valor sugerido R$300
Valor mínimo R$40

Parte do valor será destinado à Ong Mulheres da Luz que garante dignidade para mulheres em situação de prostituição no centro de São Paulo-SP.

Elemento Ar

Fascismo, ascenção da extrema direita, discurso de ódio, desmonte das políticas de saúde, cultura, educação, desgoverno, desinformação, fake news… O quê isso tem a ver com o elemento ar? A astrologia é uma linguagem que pode ser usada para falar de qualquer assunto, ela tem um vocabulário próprio que serve para produzir leituras e sentidos. Os signos de ar – Gêmeos, Libra e Aquário – são os únicos do zodíaco que não tem representação animal. O ar é O elemento da cultura humana, do que produzimos no contato com nossa comunidade, com nossa espécie (não vou entrar em debates da antropologia agora, vamos ficar com o senso comum do que entendemos por cultura). Todos os campos de conhecimento pertencem ao ar, é o elemento que fala do invisível que circula entre nós, é pelo ar que o som da nossa voz chega aos ouvidos dos outros, elemento do patrimônio imaterial, da história, da política, das artes, das ciências, das linguagens, do ensino e aprendizagem, dos códigos sociais, da ética…

Passamos de um momento histórico de super valorização do pensamento “racional”, abstrato, técnico (cheio de problemas colonizadores persupuesto) e chegamos nesse novo momento onde toda forma de produção de saber parece estar sendo atacada. Ouvi uma frase na última eleição que até hoje não sai da minha cabeça: “é fake news mas eu acredito”. Que tipo de diálogo podemos travar com alguém que deliberadamente abriu mão da capacidade de pensar? “Acredito no que quero acreditar” é um desmantelamento de qualquer parâmetro para produzir conhecimento e diálogo. Uma ofensa para todos os signos de ar e o que eles representam. O ar é o elemento que questiona, que faz perguntas, que circula sobre uma situação para olhar de outros ângulos, é um elemento que fala da capacidade de ver o invisível, de criar o que ainda não foi visto. Que trocas estabelecemos com nossa vizinhança, com o espaço público, com os grupos que fazemos parte, com a aldeia, com o bairro, com o quilombo, com a cidade, com o país, com a América Latina…?

Elemento da sociabilidade. Gêmeos abre o campo das perguntas e experimentação para aprender e criar nomes, Libra vai abrir para os encontros, relacionamentos e os diálogos e Aquário vai pensar nesses processos num nível amplo e coletivo para imaginar o futuro.
Por quê é importante a astrologia falar de fascismo? A resposta mais primária é que temos que discutir sobre isso em todos os espaços. Mas existe um outro motivo importante: essa “área” muito próxima do esoterismo, misticismo, espiritualismo muitas vezes é atravessada pelas ideias de determinismo, “plenitude”, “harmonia total”, apaziguamento das dúvidas, busca por um “todo”, um “absoluto iluminado” . Claro que há muitas leituras filosóficas possíveis para esses termos mas observo que muitas vezes o discurso da “harmonia total” flerta com o pensamento totalitário. Se devemos estar inteiramente “plenos”, se a harmonia deve prevalecer acima de tudo, qual espaço há para o questionamento, para a discussão, para outros olhares e consequentemente para a diferença? E é isso que o fascismo e totalitarismo prega: a eliminação de qualquer diferença. Extermínio literal pelo genocídio e extermínio simbólico através da censura e manipulação do discurso. Pois o ar é o elemento que ama a diferença. Libra muitas vezes é pintado como signo romântico por ser regido pela deusa do amor Vênus mas o amor de Libra não se resume a encontrar alguém pra casar, é o amor pela interlocução, pela potência de existência que o encontro com o outro permite. Esse amor pelo “outro” não se resume as pessoas, mas também as ideias, pontos de vista diferente que expandem nosso contato com a vida. Esse é um amor que todos os signos de ar partilham pois esse é o elemento que fala da potência humana de criar no encontro com os outros, de transformar o mundo a partir desse contato, de não se submeter a destinos prontos e determinados.  Todos os elementos falam de princípios vitais e no caso do ar o grande assunto é a potência da linguagem e aprendizagem. Não importa se a pessoa tem uma condição neurológica, todas as pessoas têm a potência da linguagem e da aprendizagem (inclusive as pessoas bicho, planta, pedra mas isso é outra conversa). A linguagem produz singularidade e ao mesmo tempo é o que temos em comum, é o que permite nos organizar, nos associar, conversar, partilhar.

A crise que vivemos é ética e estética, devemos pensar nas imagens e discursos  que queremos produzir se quisermos criar outras convivências menos violentas e estúpidas. O ar pode nos ensinar sobre a importância do questionamento, da pesquisa, do olhar complexo que considera diversos pontos de vista, do valor da diferença. Estamos em um momento onde a asfixia não é apenas metáfora e estudar, pesquisar, dialogar, produzir arte é exercício de oxigenação, de resistência. Não é possível tolerar a intolerância, no limite estamos falando de uma defesa da própria vida, do vital.

Homenagem a Goya – Odilon Redon, 1885

Gêmeos

O Sol está em Gêmeos, o ar mutável do zodíaco. Vênus também vai passar algum tempo nesse signo. O ar é o único elemento do zodíaco que não tem representação animal. É o elemento da cultura, da linguagem humana, disso que criamos na troca com a nossa comunidade. Gêmeos é o primeiro ar do zodíaco. Gosto de pensar que ele traz essa imagem do aprender a falar, exercício de nomear as coisas, como dois bebês conversando, quando o som e o significado não estão fechados. É um signo que fala da liberdade para imaginar, potência de olhar além do que já está visto. Depois que as “coisas” se formam na terra fixa de Touro elas devem circular e criar trocas entre si, aí temos o signo de Gêmeos. Ar nômade, da criação de novos caminhos, da liberdade e aleatoriedade de se brincar com as linguagens. Uma moralização comum na leitura desse signo é considerar que tem a ver com falsidade, “duas caras”, fofoca… Proponho outras imagens: pense numa criança nos primeiros ano de vida. Ela vai experimentar com o mundo ao redor, com o ambiente, com as coisas, pessoas que estão ao seu alcance. Ela vai e volta, faz um caminho várias vezes, erra, erra, acerta, erra, acerta… É o signo da cartografia e não dos mapas que já estão desenhados e cristalizados. É o signo da multiplicidade, da complexidade, abertura de pontos de vista – e não redução. Tem um vídeo da @joutjout em que ela conversa com uma amiga sobre “aprender a aprender”. É essa ideia de que é mais importante aprender a aprender (questionar, pesquisar, etc.) do que se limitar a memorizar um “conteúdo” fixo –  já que o mundo está em constante mudança. Estamos em um momento sinistro em que o aprender, a educação, a arte, o pensar, o saber estão sendo atacados, vemos uma exaltação da ignorância, “acredito no que quero acreditar”. Ao mesmo tempo o moralismo burro, a brutalidade, o ódio bruto. Pois Gêmeos nesse momento pode falar de uma resistência do pensar, das linguagens, artes e saberes. Pode nos ensinar sobre os caminhos errantes da aprendizagem num mundo instável, a importância do questionamento, da investigação, abrir campos curiosos para que o pensamento possa ebolir. 

Elemento Terra

A terra assim como a água também é um elemento muitas vezes associado ao feminino, na astrologia e muito além dela. Metáfora do corpo, da nutrição, gestação… E que tipo de relação a cultura ocidental estabeleceu com a terra? Com o corpo? Com a alimentação? Com os povos originários? Tratada como coisa, a terra e os territórios foram tomados, coisa-objeto-sem vida que pode ser apropriada e consumida, explorada para produzir acumulação de riqueza. Ainda nos invade um pensamento que separa corpo e mente, como se não houvesse uma inteligência ou linguagem do corpo. Como se a terra, os territórios, os organismos, os corpos fossem coisa sem espírito. Assim os signos do elemento terra ganharam esteriótipos completamente tacanhos: Touro come, Virgem limpa, Capricórnio trabalha… Num exercício de criar analogias falar em terra me leva a pensar des-colonização, ecofeminismo, biopolítica, corpos disciplinados, poluição, agricultura, alimentação, povos originários, xamanismo…

O elemento terra na astrologia é metáfora de tudo que tem matéria, corpo, tudo que acontece no espaço e no tempo. Convido pensar a terra na perspectiva que todos elementos da natureza são vivos (incluindo as rochas, a areia, o vento, os ossos, as estrelas…) e todos eles se comunicam a sua maneira. O papel da cientista, do pajé, da astróloga, do artista, da poeta é produzir conhecimento a partir da escuta dessas comunicações. “Eu estou apaixonado, por uma menina terra, signo de elemento terra, do mar se diz terra a vista, terra para o pé firmeza, terra para a mão carícia, outros astros lhe são guia…” A terra é o elemento da inteligência do corpo, uma linguagem muito primária que produz conhecimento a partir da experiência. A cultura moderna ocidental no entanto insiste em controlar, silenciar, dominar por número, tabelas e pílulas… Mesmo propostas de “bem-estar” muitas vezes seguem a mesma lógica. Um corpo que deve se submeter a um referencial externo e muitas vezes idealizado – ao invés de exercitar a capacidade de percepção, de se auto-observar.

Para cartografar, mapear o elemento terra podemos perguntar qual nossa relação com o tempo? Com o silêncio? Com a experiência? Com a nutrição? Digestão? O que nos sustenta? Em qual território estamos? Pensar sobre práticas. Observar nossos gestos, no sentido amplo da palavra… Estou ruminando com minha Lua em Capricórnio o curso online de Lua e os quatro elementos. A proposta é criar essa prática de cartografia, de mapeamento a partir da astrologia e da arte. Sigo no tempo de germinar… Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

Fluorita, Anton watzl minerais

Elemento Fogo

O elemento fogo é o elemento masculino por excelência na astrologia. Como comentei no último texto sobre a água, a astrologia é uma linguagem amoral que cria significados a partir da observação da natureza. No entanto, as leituras astrológicas muitas vezes estão impregnadas da moral da época. E claro, também do machismo. Assim os signos de fogo (Áries, Leão, Sagitário) muitas vezes são tratados como os representantes da masculinidade tóxica: violentos, egocêntricos, mimados, sem empatia ou dimensão das outras pessoas, presos nas próprias fantasias de grandeza, incapazes de lidar com frustração…

De novo proponho um retorno ao elementar, como esse elemento aparece na natureza? O fogo é quente e luminoso, com ele podemos cozinhar a comida, nos esquentar no inverno, acender uma vela para enxergar no escuro. O fogo é vibrante, intenso, porém não tem corpo, é impossível segurar ou prender o fogo, o seu movimento é de sempre seguir em frente e sempre apontar para o alto. O fogo também queima e consome, está ligado ao princípio vital da criação e da destruição – um não existe sem o outro. É símbolo da chama do espírito, quando morremos ela se apaga. O Sol é uma bola de fogo que permite a vida no planeta e o amanhecer nos lembra sobre “a eterna novidade do mundo”, o novo persiste, a luz se apresenta depois de todas as noites.

Vivemos numa cultura que lida muito mal com a agressividade, um importante tema do fogo. Ou ela é vista como algo ruim, que deve ser negada e abafada ou explode violentamente, se afirmando de maneira fálica, subjugando. São dois lados da mesma moeda. É preciso produzir um saber e uma prática sobre o conflito, sobre as divergências. O fogo é o primeiro elemento da astrologia porque sem o corte, sem o calor, não se produz o novo. O atrito garante que exista diferença, mostra que nem tudo é igual, nem deve ser. Penso agressividade como um princípio vital que nos permite produzir o corte, dizer não e (principalmente) dizer sim, movimentar e criar, se diferenciar do resto. Por isso o fogo é o elemento que fala da singularidade.

Singular não é uma identidade fechada fálica “eu sou assim e pronto”, singular é a potência que traz o novo, de imaginar o que ainda não foi visto, é um lugar de abertura. Onde está o brilho e onde está o opaco na sua vida? Quais vias o calor encontra pra se manifestar? Ou é apenas explosão – ou implosão? O que te move, aquece, o que faz vibrar? .

J. M. W. Turner, paintings of the Burning of the Houses of Parliament (the Houses of Lords and Commons) beside the River Thames on 16th October, 1834 (III)

Elemento Água

O elemento água tradicionalmente representa o feminino. A astrologia é uma linguagem amoral que parte dos elementos da natureza para produzir significados. No entanto a moral de cada época sempre se infiltra nas leituras astrológicas. Com isso o elemento água ao longo do tempo ficou submetido as mesmas leituras machistas e patriarcais criadas sobre “o feminino”. Elemento dos afetos, dos vínculos e da subjetividade o elemento água ficou identificado com o irracional, a loucura, a histeria, a compulsão, o sentimentalismo. Como se a água fosse um elemento passivo, sem linguagem e sem capacidade de produzir conhecimento. Câncer e Peixes muitas vezes são retratados como signos idiotas que só sabem chorar, Câncer ainda por cima ficou reduzido a imagens da família pequeno-burguesa e do mundo doméstico. Escorpião por sua vez virou símbolo da loucura e da sexualidade desenfreada, retratado muitas vezes como se fosse uma prostituta maligna. 

Por isso antes de pensar nas simbologias, gosto de remeter aos elementos na natureza. A água é o elemento que mata a nossa sede, sobrevivemos muito mais tempo sem comida do que sem água. A água limpa e renova. Dos quatro elementos ele é o mais metamórfico, pode ser líquido, gasoso e sólido. A água sempre encontra passagem, sempre encontra o seu caminho e se guia pelo centro da terra, pela gravidade, sempre sabe qual direção tomar (daí as leituras sobre a intuição da água). A água é o elemento que tem a maior capacidade erosiva e que provoca as maiores transformações na paisagem. Ela dissolve montanhas, cria cânions e cavernas, fura pedras, alaga florestas e cidades. A força da água é descomunal, ela produz tsunamis, maremotos, erupções, alagamentos, chuvas de granizo, geadas… A água que existe hoje é a mesma água que os dinossauros tomaram, por isso é um elemento associado às imagens de ancestralidade, do primordial e com o selvagem e instintivo.  Tem água no nosso corpo, no ar, na maioria dos objetos e também nos outros corpos. Gosto de imaginar que podemos vibrar com essas correntezas de água que estão na gente e circulam ao nosso redor. É assim que a água se comunica, com sua receptividade e porosidade ela se afeta com o que está ao redor e assim pode saber sobre os outros seres. É uma linguagem afetiva que produz conhecimento pelo sensível e não pela dominação do “racional” sobre os objetos. É receptiva e ativa ao mesmo tempo, é capaz de violentos transbordamentos se não encontra saídas. Antes de uma astrologia interpretativa sugiro uma astrologia investigativa. A quais imagens a água nos remete? Como os fluxos afetivos circulam? Quais vazantes encontramos? Onde está úmido, nutritivo e onde está seco? Onde está represado, criando lodo? Com o que criamos liga, conexão?

Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

água – ha bun shu

Ateliê de Astrologia

Faz tempo que estou quebrando a cabeça pra fazer uma versão online dos ateliês de astrologia. De 2016 a 2019 dei um curso de formação em astrologia e criei alguns grupos de estudo com quem queria dar continuidade. Aos poucos fui radicalizando essa ideia de pensar astrologia como linguagem artística e um instrumento de criação. A ideia dos ateliês é passar um conteúdo básico de astrologia e ao mesmo tempo partir disso para investigar o próprio mapa astral de uma forma sensível e criativa. Usar os assuntos da astrologia para levantar questões, exercitar um auto-mapeamento e a força criativa.

Acho que não vai demorar muito pra estruturar esse curso mas confesso que é muito difícil produzir e criar algo nesse contexto de quarentena. Eu também trabalho como artista e vi todos os projetos que estava envolvida serem adiados sem pagamento. Conversando com outras pessoas autônomas antes mesmo da pandemia percebi que muita gente estava deprimida, ansiosa, com insônia, pânico, etc. A querida Bruna da @peluqueriafuriosas abriu meu olho e disse que fazemos um trabalho triplo: primeiro precisamos criar o trabalho, depois precisamos fazer o trabalho acontecer e por fim realizar – o curso, a leitura de mapa, o corte de cabelo, a roupa, etc. Além de tudo precisamos estar presentes nas redes sociais, ser carismáticas, interessantes…

.Com tudo isso que está acontecendo vejo que aos poucos as pessoas estão ganhando consciência sobre o trabalho das pessoas autônomas e artistas – e também de pesquisadores e cientistas. É preciso parar de romantizar “trabalhar com o que ama”. Isso só é gostoso pra quem tem outra renda, pra quem tem aluguel pra pagar é duro ao ponto de muitas vezes as coisas perderem sentido. 

Essa semana tive a feliz notícia que um amigo matemático conseguiu finalmente a bolsa de pós doutorado. Ele passou por muitos processos depressivos e quase abandonou a pesquisa. Disse pra ele coisas que servem pra mim mesma: Vivemos num mundo doente onde nos convencem que o essencial é supérfluo. Não podemos nos deixar abater por essas inversões perversas. Que bom que ainda tem gente que insiste em pensar e criar. Assim o mundo fica um pouco mais vivo e brilhante.

Áries

O Sol está em Áries! Tem duas imagens que gosto de usar para Áries, primeiro signo do zodíaco. A primeira é a imagem do Big Bang; a explosão original que dá início ao universo e lança com velocidade todo o cosmos em expansão. A outra é a imagem do parto, o ato de nascer, primeiro contato com a vida – de forma crua, selvagem e intensa como a vida há de ser. É preciso coragem para cortar o cordão umbilical e ir à luta, traçar um caminho singular. 

Tenho visto que Áries nos últimos anos se tornou o signo maldito da vez. As pessoas adoram falar como pessoas arianas são terríveis, Satanáries, etc. Tenho vontade de fazer camisetas com a frase “pessoas não são signos, signos não são pessoas”. Áries é o fogo cardinal, potência de colocar as coisas em ação, energia e vibração primordial que traz o movimento e dá início à vida. A astrologia parte da observação dos fenômenos da natureza para criar leituras sobre as experiências humanas. Um raio é bom ou mau caráter? Um carneiro é legal ou chato? Perguntas que não fazem sentido mas ainda assim as pessoas insistem em fazer da astrologia uma arte moral, cheia de julgamentos, qualidades e defeitos, que valoriza certos aspectos em detrimento de outros. 

Vivemos numa era que valoriza a imagem, as pessoas querem estar “bem relacionadas” e mostrar o melhor lado de si. Também querem estar bem apaziguadas, sem angústia ou fome de viver, um robô eficiente e morno que sai bem na foto. Pois Áries é um signo que fala sobre a beleza das coisas brutas e honestas, sem filtro, como as crianças que são, sendo. Um signo que nos conta sobre a importância da luta, nos diz que a ação nos mantém vivas e é preciso um ato vigoroso para romper a inércia e produzir diferença. Como disse uma querida amiga ariana: Julia, o importante é não ficar parada! Áries segue em frente abrindo novos caminhos.