Saturno e Júpiter em Aquário: potências e ferramentas para 2021

por Julia Francisca

Como imaginar outros futuros a partir das fissuras de um sistema em ruínas? Como aprender com as plantas e fazer brotar vida das rachaduras do asfalto? Não venho aqui fazer um texto de previsões ou leituras para o ano e sim um texto que traga as potências e ferramentas das efemérides atuais. Quero que esse texto seja um sopro de ar aquariano, um convite para encontrar nova vida a partir dos rasgos produzidos na Terra.

2021 é marcado pelo encontro de Júpiter e Saturno em Aquário, encontro que acontece a cada vinte anos e que inaugura um grande ciclo de conjunção desses planetas em signos de ar. São ciclos longos e coletivos que atravessam gerações – e por isso sua importância astrológica. Não acredito em destinos pré-escritos ou em qualquer espécie de previsão, acredito na força do devir que sempre traz o novo e a diferença. Por isso, olhar esses ciclos numa perspectiva po-ética da astrologia não tem função de trazer respostas, mas de pensar nosso lugar diante de movimentos coletivos e planetários. Podemos aproveitar o céu apenas como um pré-texto e criar novas leituras e narrativas a cada vez. 

Vamos então honrar Aquário, signo do questionamento e insubmissão, e deixar de lado o anseio por leituras determinadas. Seu símbolo é o aguadeiro, mãos humanas que despejam água. Uma imagem-metáfora para o desdobrar dos processos, para o que está em aberto, o porvir das coisas. Capricórnio, signo de terra que o antecede, fala do cultivo e dos recursos, das estruturas e concretudes, da organização dos sistemas ao longo do tempo. Aquário é o sopro de ar que vem em seguida. Quando se chega ao topo da montanha ou no limite de algo, o único caminho é descer e pensar de novo, e criar outros sentidos para a realidade.

Aquário pergunta: para onde queremos ir daqui pra frente? De qual maneira? Como vamos nos organizar coletivamente para isso? 

Júpiter e Saturno na astrologia falam de princípios opostos, mas que se complementam: Júpiter é o espírito jovem, Saturno, o velho. Com um temos a expansão, com o outro; o recolhimento. Abundância e limite, imaginação e concretude, tempo da sincronicidade e tempo cronológico caminham juntos no céu de agora. Qual a fartura que podemos colher em tempos de escassez? Como o princípio da imaginação pode andar de mãos dadas com o princípio da concretude?

Os últimos anos foram marcados por grandes mobilizações celestes no signo de Capricórnio. Plutão, deus do mundo dos mortos, ainda continua sua passagem lenta por este signo. Podemos criar leituras sobre as crises econômicas e políticas a partir daí se quisermos. Velhos sistemas se despedaçando, a perversidade do capitalismo-fascismo escancarando os dentes, os donos do poder usando violência extrema para manter as estruturas de opressão, a morte em massa de pessoas e biomas, extinção de várias formas de vida… 

É possível imaginar outras formas de organização a partir das convulsões de antigas estruturas? Na passagem de Júpiter e Saturno para Aquário, o princípio da imaginação e do criar sentidos de Júpiter se junta com o lugar estrutural e construtor de Saturno. Como podemos nos articular coletivamente de outras formas? Como o dinheiro pode circular de outras maneiras? Qual nosso papel dentro dessa trama das estruturas humanas e ecológicas? De quais formas queremos nos articular? Com quem queremos nos associar? 

Como fazer usos mais libertários da tecnologia? 

A pandemia, o adoecimento global, acentuou um pensamento planetário ao mostrar que respiramos o mesmo ar e precisamos pensar em soluções coletivas. Como defender o SUS? O que podemos fazer coletivamente diante dos bilionários, dessa meia dúzia de pessoas-famílias que comandam o mundo? Concentração de renda nunca antes vista que leva a população de pessoas, animais, vegetais, minerais, nuvens em direção a miséria. Como combater esses poderosos que se importam tão pouco com a vida? Como resistir a um projeto genocida em larga escala, de supremacistas e extrema-direita que não querem dividir o planeta com ninguém que não seja parecido consigo? Como afirmar o valor do novo e da diferença?

Saturno nos ensina que só podemos andar a partir do chão que pisamos e não de um lugar fantasioso. Devemos sempre partir do lugar que estamos, com os recursos disponíveis, reconhecendo as limitações que temos. Essa é a sabedoria do mestre-tempo Saturno-Cronos. Paralelamente, com Júpiter podemos encontrar oportunidades a partir do reconhecimento das rachaduras. Aprender a cavar buracos nessas estruturas em ruínas para produzir a novidade, a diferença. Como podemos aprender com as plantas insubordinadas que brotam nas rachaduras do concreto? 

Aquário muitas vezes é retratado como o signo dos ideais. Pra pensar a potência deste signo proponho o deslocamento dessa ideia colonial, racionalista, de um ideal separado do corpo e da experiência. Saturno em Aquário pode falar disso também, ao invés de pensar em ideal metafísico, em sonhos de fuga da realidade, podemos pensar na imagem do horizonte e da caminhada. Se Aquário é o aguadeiro, o escorrer da vida, podemos pensar em termos de processo, de caminhada, e pra caminhar miramos o horizonte… 

A perspectiva de processo  já se abriu em Capricórnio e em Aquário vislumbra o inédito, o que não conhecemos, a diferença. O horizonte permite caminhar em frente e ter um ponto de referência para olhar o ambiente e território que estamos. Conseguiremos abrir trilhas e desvios nessa caminhada? Como encontrar as ferramentas e recursos de Saturno ao mesmo tempo em que alimentamos a imaginação jupteriana? Como reconhecer a gravidade dos fatos sem deixar de sonhar o fim do capitalismo, o fim do fascismo? 

Júpiter é um planeta que traz como tema a produção de sentidos e significados, por isso sua passagem por Aquário pode nos convocar a não nos deixar abater pelas narrativas genocidas, necropolíticas. Para honrar os tempos de agora, precisamos tomar para si furiosamente a narrativa, não cair na complacência, na melancolia. Não cair na pulsão de morte que diz que é melhor morrer cedo porque não vai ter aposentadoria. Não cair na pulsão de morte que quer apenas uma aglomeração na praia antes que tudo se acabe. 

Prece para Saturno e Júpiter em Aquário: que o sonhar e o fazer sejam soprados pelo ar da liberdade. Que possamos defender o pensamento, a produção de conhecimento, construir narrativas coletivas em defesa da vida. Que possamos afirmar a diferença todos os dias. Aprender com o passado e seguir em direção a emancipação coletiva. Que um novo mundo possa surgir da nossa imaginação potente e insurgente.

Astrologia e Pandemia

entrada de Saturno em Aquário dia 23/03

Astrologia é uma poderosa ferramenta para criar leituras sobre o tempo presente. Não é de hoje que a Astrologia é utilizada para entender pestes coletivas; a conjunção Marte e Saturno por exemplo foi usada para explicar a peste bubônica em meados de 1300. Prefiro me afastar da noção de “previsão” e “influência”, os planetas não “fazem” nada com a gente. Nós é que usamos os planetas como símbolos para olhar o mundo e produzir novos significados. Sendo assim, como podemos utilizar a entrada de Saturno em Aquário para pensar na atual conjuntura? Saturno é Cronos, deus do tempo cronológico, aquele que come os próprios filhos, o tempo que consome tudo o que ele mesmo criou. É um planeta que fala dos limites do corpo, da matéria, do tempo e espaço. Realidade concreta das coisas. 

Em Capricórnio, signo onde esteve nos últimos anos, podemos pensar sobre os limites das estruturas do mundo, os modos de sobreviver, a estrutura econômica e a organização do poder. No encontro recente entre Saturno e Plutão – deus do submundo e da morte – vimos a podridão de um velho sistema colonial, opressor, violento ganhar forma (Bolsonaro eleito…). Um neo-fascismo que finalmente escancarou a destrutividade vil dos velhos podres poderes. Saturno em Capricórnio pode falar da urgência de ganhar senso de realidade, conhecer como as coisas se estruturam para poder agir sobre elas, ganhar ferramentas para atuar na realidade concreta. Aquário por sua vez é o signo das novas ideias, da tecnologia, do pensamento em rede, da noção de sistema. Ele traz a concepção de que tudo se conecta de maneira complexa e por isso a urgência de políticas que abarquem a todas as pessoas, sem exclusão. Vemos nessa pandemia as falhas da política neo-liberal que privatiza ao invés de coletivizar, a necessidade de lutar pelo SUS, de olhar para as comunidades e populações de uma forma sistêmica. Pensar em escala global e entender que estamos no mesmo planeta.

O contágio por um lado mostra que todas as pessoas estão no mesmo barco-planeta e ao mesmo tempo expõe as desigualdades, a falta de políticas públicas para as pessoas idosas, moradoras de rua, trabalhadoras informais… O clima de pânico e desespero alimenta as indústrias da morte, um terror global que não traz soluções coletivas e nenhuma mudança nas políticas econômicas. Vemos o FMI, banco mundial, sorrindo e oferecendo “crédito” aos países quebrados… Pois Saturno em Aquário pode nos falar sobre as ruínas dessa velha política ao mesmo tempo em que pode nos fazer pensar sobre a urgência de novas formas de organização e de utilização das tecnologias inclusive. Saturno em Aquário pode nos dizer que não é o momento de utopias e soluções abstratas mas de construir e estruturar novas políticas com muito senso de realidade. Organizar a revolta, sair do pensamento mesquinho, entender que política não é disputa entre torcidas, ganhar na marra senso de coletividade…

aviso à população sobre cuidados relativos à gripe espanhola de 1918

Saturno: guardião do que É

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Arte de Jacob Robert Price

Tempo, tempo, tempo, tempo

ou

Saturno: guardião do que É

“(…) Peço-te o prazer legítimo / E o movimento preciso / Tempo, tempo, tempo, tempo / Quando o tempo for propício / Tempo, tempo, tempo, tempo / De modo que o meu espírito / Ganhe um brilho definido (…)”

Oração ao Tempo, Caetano Veloso.

Saturno na mitologia grega é Cronos, aquele que come os próprios filhos e rege o passar do tempo cronológico. Na Astrologia, Saturno não diz respeito a um tempo abstrato, à retícula do calendário ou ao número do ano em que estamos. Saturno é o tempo se dando na concretude das coisas do mundo, é o tempo inscrito na matéria. A despeito do que dizem deste planeta, ele é extremamente afirmativo e positivo; realidade que se faz realidade a todo momento, o próprio “é” das coisas, a imanência latente.

Como conciliar a ideia de que Saturno é afirmativo e positivo se ele tradicionalmente está ligado ao negativo, ao vazio, à frustração, à inibição e ao constrangimento de ser? Saturno não opera na subtração? Não é ele que diz “menos”? Não é ele que diz “não”? Não é esse planeta que dá o limite, a restrição de todas as coisas?

Jus-ta-men-te.

Cada “sim” de Saturno abre fossos de “não”: frustração. Lidar com o que “é”, com a materialidade e limite das coisas traz em si o atrito e o desgaste. O átomo, que constitui a matéria, é mais vazio do que cheio. Encostar no que é palpável já é lidar com a falta. Há algo nas coisas que, estando, não está lá.

Saturno nos traz a desconfortável notícia de que o mundo não se fez mundo no momento em que nascemos. Ele nos conta que nosso ser se constitui pelo entrelaçamento e desdobramento do tempo-matéria. Meu corpo, meus traços, minha aparência, minhas opiniões, (meus desejos?!), carregam histórias da família em que nasci, da sociedade em que vivo, do momento histórico a qual pertenço. Saturno nos obriga a lidar com a estrutura do mundo, com a organização social, com o passado que consitui o presente, com o que está definido à priori.

Tudo o que é sensível ao toque, que tem contorno e estrutura, pertence ao seu domínio. Talvez essa qualidade tátil/corpórea de Saturno seja um dos motivos para a metafísica ocidental cristã tê-lo condenado ao status de planeta maléfico. Nesse sistema de pensamento, o espírito, elevado, está preso ao corpo, pecador. Só é possível encontrar salvação fora da matéria, em um paraíso de luz. A carne e o mundo material nos condenam ao sofrimento, à dor, à limitação. Punição.

Toda vez que achamos que a mente e o espírito são superiores ao corpo e ao cotidiano estamos reproduzindo essa lógica. Talvez para outros povos, outras culturas, o que entendemos como pertencente à dimensão de Saturno não doa tanto, não machuque tanto assim. Para os zen budistas, por exemplo, não há salvação fora do corpo, o sofrimento está justamente na separação da mente-corpo. A respiração e a postura corporal nos trazem presença e essa presença é o que permite a iluminação. No zen budismo, as coisas simplesmente são, não há respostas transcendentes ou sobrenaturais. Não se busca o que está além e sim viver com presença o aqui-agora.

Saturno pode doer muito quando rejeitamos o aqui-agora. Ele nos obriga a enfrentar a realidade crua e maciça, sem fugas. Ele nos conta que o mundo está aí e precisamos lidar com ele. No entanto, o discurso midiático contemporâneo prega justamente o contrário. Nos diz que basta ter força de vontade individual para que as coisas se realizem e repete frases do tipo “sua vida está nas suas mãos, basta querer”.

Saturno não aceita esse tipo de prepotência. Ele nos obriga a reconhecer que as coisas têm o seu próprio tempo, a perceber que a maturação faz parte dos processos vitais.

Processo   

troche - saturno

Saturno não é necessariamente dolorido, o reconhecimento do que ele representa pode ser vivido como uma benção para pessoas que enfrentam dificuldade para se constituir no mundo. Ele pode ser uma grande mão da vida que encosta na pele e mostra que temos contorno, que somos reais e que podemos fazer alguma coisa com os recursos de que dispomos.

Saturno impõe os limites e são esses limites que nos dão contorno, presença, reconhecimento da pele, do que nos separa do resto. Saturno é o barco que recebemos para fazer a travessia da vida, é a estrutura que garante que a gente não se afogue na imensidão. Mostra o peso das coisas ao mesmo tempo em que revela que o chão é o limite. Podemos cair, mas a terra nos sustenta.

Aliás, “sustentação” é uma palavra que tem muito a ver com Saturno, pois é o Saturno que existe em nós que pode sustentar o peso do nosso corpo. Só podemos andar porque o chão oferece resistência aos nossos pés. É Saturno que nos lapida internamente e garante os recursos para sobrevivermos neste mundo. Ele nos diz que é preciso trabalhar, inclusive para garantir os recursos materiais: dinheiro, casa, alimento…

O temido retorno de Saturno, quando este planeta volta ao ponto em que estava quando nascemos, nada mais é do que o momento de constatação dessas necessidades. Muitas pessoas chegam aos 28/29 anos, no primeiro retorno de Saturno, sem lidar muito bem com as dimensões saturninas da vida: as limitações, os contornos, a importância da frustração, a necessidade de trabalhar para conseguir com tempo e esforço o que realmente desejam… Elas podem sentir o retorno de Saturno como uma pancada, como se a vida as obrigasse a olhar para o que elas evitaram ao longo da juventude. Saturno nos diz: “o tempo passa, o que você está fazendo do seu tempo?”.

Entretanto, o retorno de Saturno também pode ser vivido como o momento de constatação da própria trajetória, de concretização de projetos, de perceber a própria constituição interna, a colheita após uma longa lavoura. Da mesma forma, o segundo retorno de Saturno, em torno dos 56 anos, pode ser vivido tanto como um momento de realização quanto de reconhecimento da passagem do tempo, do começo da velhice.

Pensar que existe uma data pré-estabelecida na qual todas as pessoas vão passar por um “grande evento cósmico” ou levar uma rasteira da vida, é reduzir muito o que esses processos representam e a forma como cada um lida com eles. Se compreendermos Saturno dentro de seu paradoxo podemos reconhecer que ele é tanto a fria rocha quanto o diamante brilhante.

Saturno muitas vezes mascara o que há de mais precioso, para preservá-lo de uma exposição prematura. Só o tempo, o atrito do tempo e o limite das coisas do mundo permitem desgastar a casca dura que se apresenta no começo, lapidar a pedra bruta. Todos os contatos com Saturno envolvem lapidação, engaste, entalhamento; trabalho fino e concentrado para se chegar ao núcleo.

Esse planeta é o guardião da nossa integridade, da nossa verdade interna porque ele põe nossa expressão singular à prova. Depois de tanto tempo de lapidação, de desgaste com a dureza, é possível conquistar este lugar de constituição interna. Podemos nos expressar dentro do que é propriamente nosso. Depois de um longo caminho, quem sabe possamos olhar para nossa trajetória e reconhecer o lugar em que estamos.

A preciosidade que Saturno oferece após esse desgaste do tempo é a conquista da autoridade interna. O trajeto autoriza o saber sobre nós mesmos. Podemos receber a permissão interna de afirmar a própria verdade sem pedir autorização dos outros. De mãos dadas com Saturno podemos dizer que o tempo passou e que a gente re-conhece o próprio percurso. A partir daí Saturno pode deixar de ser inimigo para se tornar o mestre-tempo que é.

Na mitologia, Saturno-Cronos come os próprios filhos. Ele é tanto criador quanto devorador. Por isso ele está ligado com o reconhecimento da passagem do tempo, da nossa finitude, da velhice e da morte. A Morte, no entanto, é apenas a face oculta da Vida. É o vazio invisível de onde todas as coisas podem surgir. Se o corpo-mente é um só, a Vida-Morte também.

Depois desse longo processo com Saturno, se fizermos as pazes com sua dimensão paradoxal, talvez poderemos receber o pagamento deste árduo trabalho que ele impõe. Reconhecer nossa finitude, os limites impostos pelo tempo, pode ser a chave para deixar de temer a Morte-Vida. Afinal, esse desgaste da matéria é o que permite a roda do tempo girar.

Quem sabe assim os processos pessoais deixem de se apresentar com tanta dureza. A experiência individual possa deixar de ser um fardo e se revelar como caminho/percurso que dá sentido para nossa existência. Então, o mestre Tempo talvez nos ajude a expressar com maestria o nosso “idioma pessoal”, a nossa contribuição para esta vida-passagem. Como diz o poeta, “de modo que o meu espírito ganhe um brilho definido”.

– Julia Francisca

[ Para conhecer mais Saturno, ler “Saturno” de Liz Greene.]