Elemento Terra

A terra assim como a água também é um elemento muitas vezes associado ao feminino, na astrologia e muito além dela. Metáfora do corpo, da nutrição, gestação… E que tipo de relação a cultura ocidental estabeleceu com a terra? Com o corpo? Com a alimentação? Com os povos originários? Tratada como coisa, a terra e os territórios foram tomados, coisa-objeto-sem vida que pode ser apropriada e consumida, explorada para produzir acumulação de riqueza. Ainda nos invade um pensamento que separa corpo e mente, como se não houvesse uma inteligência ou linguagem do corpo. Como se a terra, os territórios, os organismos, os corpos fossem coisa sem espírito. Assim os signos do elemento terra ganharam esteriótipos completamente tacanhos: Touro come, Virgem limpa, Capricórnio trabalha… Num exercício de criar analogias falar em terra me leva a pensar des-colonização, ecofeminismo, biopolítica, corpos disciplinados, poluição, agricultura, alimentação, povos originários, xamanismo… O elemento terra na astrologia é metáfora de tudo que tem matéria, corpo, tudo que acontece no espaço e no tempo. Convido pensar a terra na perspectiva que todos elementos da natureza são vivos (incluindo as rochas, a areia, o vento, os ossos, as estrelas…) e todos eles se comunicam a sua maneira. O papel da cientista, do pajé, da astróloga, do artista, da poeta é produzir conhecimento a partir da escuta dessas comunicações. “Eu estou apaixonado, por uma menina terra, signo de elemento terra, do mar se diz terra a vista, terra para o pé firmeza, terra para a mão carícia, outros astros lhe são guia…” A terra é o elemento da inteligência do corpo, uma linguagem muito primária que produz conhecimento a partir da experiência. A cultura moderna ocidental no entanto insiste em controlar, silenciar, dominar por número, tabelas e pílulas… Mesmo propostas de “bem-estar” muitas vezes seguem a mesma lógica. Um corpo que deve se submeter a um referencial externo e muitas vezes idealizado – ao invés de exercitar a capacidade de percepção, de se auto-observar. Para cartografar, mapear o elemento terra podemos perguntar qual nossa relação com o tempo? Com o silêncio? Com a experiência? Com a nutrição? Digestão? O que nos sustenta? Em qual território estamos? Pensar sobre práticas. Observar nossos gestos, no sentido amplo da palavra… Estou ruminando com minha Lua em Capricórnio o curso online de Lua e os quatro elementos. A proposta é criar essa prática de cartografia, de mapeamento a partir da astrologia e da arte. Sigo no tempo de germinar… Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

Fluorita, Anton watzl minerais

Touro

Touro é o primeiro signo de terra do zodíaco, momento em que a força inicial do fogo ganha corpo, consistência, tempo. Se Áries é o Big-Bang que inicia o universo, Touro são os planetas entrando em órbita, se tornando redondos, condensação de poeira estelar. Um signo de encarnação, tornar carne, habitar a primeira casa que temos: nosso próprio corpo. Como o bebê que acaba de nascer e vai experimentar pelos sentidos o mundo ao redor. Sentir o sabor das coisas para conhecê-las, uma inteligência sinestésica que parte da escuta do próprio corpo para conhecer o mundo – o macio, o áspero, o salgado, o doce. Presença de montanha, reconhecimento do aqui e agora, busca por território, chão onde pisar, consistência. Um signo que cuida do que é primário pra nossa sobrevivência: nutrição, abrigo, repouso.

A terra é um elemento que fala dos processos do corpo, da matéria, do que tem forma, do que está sob as ordens do tempo-espaço. Só que vivemos numa cultura profundamente metafísica, separamos corpo e mente, usamos a Terra como se ela fosse uma coisa sem vida que podemos simplesmente nos apropriar. Por isso os signos de terra são reduzidos a coisas muito literais, Touro é retratado muitas vezes apenas como um signo que come, dorme e busca prazer.

Pra pensar em Touro gosto de trazer os antigos rituais de agradecimento à terra, rituais de fertilidade onde entregamos parte da colheita e do alimento à terra de onde viemos. Num mundo em que as pessoas estão tão alheias a si mesmas, consumidas pelo tempo da máquina, Touro pode nos dizer sobre a importância da ruminação, do reconhecimento dos tempos, dos processos. A nutrição não é apenas barriga cheia, envolve o processo de digestão, nosso corpo precisa de tempo pra absorver e tornar seu o que vem de fora. O sono não é apenas preguiça, é o momento em que produzimos memória e assimilamos tudo o que vivemos durante o dia. Touro é um signo muito primitivo, nos fala das coisas básicas da vida, a necessidade de estar aqui e não além. Vivemos no mundo da máquina, de pessoas robotizadas, anestesiadas e Touro nos fala da importância de voltar pros sentidos, pro sensível.

Um signo que pode nos ensinar sobre a inteligência do corpo, a inteligência da terra. Escutar o corpo para nos conhecer, conhecer o mundo e estar aqui com outra presença.