Elemento Ar

Fascismo, ascenção da extrema direita, discurso de ódio, desmonte das políticas de saúde, cultura, educação, desgoverno, desinformação, fake news… O quê isso tem a ver com o elemento ar? A astrologia é uma linguagem que pode ser usada para falar de qualquer assunto, ela tem um vocabulário próprio que serve para produzir leituras e sentidos. Os signos de ar – Gêmeos, Libra e Aquário – são os únicos do zodíaco que não tem representação animal. O ar é O elemento da cultura humana, do que produzimos no contato com nossa comunidade, com nossa espécie (não vou entrar em debates da antropologia agora, vamos ficar com o senso comum do que entendemos por cultura). Todos os campos de conhecimento pertencem ao ar, é o elemento que fala do invisível que circula entre nós, é pelo ar que o som da nossa voz chega aos ouvidos dos outros, elemento do patrimônio imaterial, da história, da política, das artes, das ciências, das linguagens, do ensino e aprendizagem, dos códigos sociais, da ética… .Passamos de um momento histórico de super valorização do pensamento “racional”, abstrato, técnico (cheio de problemas colonizadores persupuesto) e chegamos nesse novo momento onde toda forma de produção de saber parece estar sendo atacada. Ouvi uma frase na última eleição que até hoje não sai da minha cabeça: “é fake news mas eu acredito”. Que tipo de diálogo podemos travar com alguém que deliberadamente abriu mão da capacidade de pensar? “Acredito no que quero acreditar” é um desmantelamento de qualquer parâmetro para produzir conhecimento e diálogo. Uma ofensa para todos os signos de ar e o que eles representam. O ar é o elemento que questiona, que faz perguntas, que circula sobre uma situação para olhar de outros ângulos, é um elemento que fala da capacidade de ver o invisível, de criar o que ainda não foi visto. Que trocas estabelecemos com nossa vizinhança, com o espaço público, com os grupos que fazemos parte, com a aldeia, com o bairro, com o quilombo, com a cidade, com o país, com a América Latina…? Elemento da sociabilidade. Gêmeos abre o campo das perguntas e experimentação para aprender e criar nomes, Libra vai abrir para os encontros, relacionamentos e os diálogos e Aquário vai pensar nesses processos num nível amplo e coletivo para imaginar o futuro.
Por quê é importante a astrologia falar de fascismo? A resposta mais primária é que temos que discutir sobre isso em todos os espaços. Mas existe um outro motivo importante: essa “área” muito próxima do esoterismo, misticismo, espiritualismo muitas vezes é atravessada pelas ideias de determinismo, “plenitude”, “harmonia total”, apaziguamento das dúvidas, busca por um “todo”, um “absoluto iluminado” . Claro que há muitas leituras filosóficas possíveis para esses termos mas observo que muitas vezes o discurso da “harmonia total” flerta com o pensamento totalitário. Se devemos estar inteiramente “plenos”, se a harmonia deve prevalecer acima de tudo, qual espaço há para o questionamento, para a discussão, para outros olhares e consequentemente para a diferença? E é isso que o fascismo e totalitarismo prega: a eliminação de qualquer diferença. Extermínio literal pelo genocídio e extermínio simbólico através da censura e manipulação do discurso. Pois o ar é o elemento que ama a diferença. Libra muitas vezes é pintado como signo romântico por ser regido pela deusa do amor Vênus mas o amor de Libra não se resume a encontrar alguém pra casar, é o amor pela interlocução, pela potência de existência que o encontro com o outro permite. Esse amor pelo “outro” não se resume as pessoas, mas também as ideias, pontos de vista diferente que expandem nosso contato com a vida. Esse é um amor que todos os signos de ar partilham pois esse é o elemento que fala da potência humana de criar no encontro com os outros, de transformar o mundo a partir desse contato, de não se submeter a destinos prontos e determinados.  Todos os elementos falam de princípios vitais e no caso do ar o grande assunto é a potência da linguagem e aprendizagem. Não importa se a pessoa tem uma condição neurológica, todas as pessoas têm a potência da linguagem e da aprendizagem (inclusive as pessoas bicho, planta, pedra mas isso é outra conversa). A linguagem produz singularidade e ao mesmo tempo é o que temos em comum, é o que permite nos organizar, nos associar, conversar, partilhar.
A crise que vivemos é ética e estética, devemos pensar nas imagens e discursos  que queremos produzir se quisermos criar outras convivências menos violentas e estúpidas. O ar pode nos ensinar sobre a importância do questionamento, da pesquisa, do olhar complexo que considera diversos pontos de vista, do valor da diferença. Estamos em um momento onde a asfixia não é apenas metáfora e estudar, pesquisar, dialogar, produzir arte é exercício de oxigenação, de resistência. Não é possível tolerar a intolerância, no limite estamos falando de uma defesa da própria vida, do vital.

Homenagem a Goya – Odilon Redon, 1885

Gêmeos

O Sol está em Gêmeos, o ar mutável do zodíaco. Vênus também vai passar algum tempo nesse signo. O ar é o único elemento do zodíaco que não tem representação animal. É o elemento da cultura, da linguagem humana, disso que criamos na troca com a nossa comunidade. Gêmeos é o primeiro ar do zodíaco. Gosto de pensar que ele traz essa imagem do aprender a falar, exercício de nomear as coisas, como dois bebês conversando, quando o som e o significado não estão fechados. É um signo que fala da liberdade para imaginar, potência de olhar além do que já está visto. Depois que as “coisas” se formam na terra fixa de Touro elas devem circular e criar trocas entre si, aí temos o signo de Gêmeos. Ar nômade, da criação de novos caminhos, da liberdade e aleatoriedade de se brincar com as linguagens. Uma moralização comum na leitura desse signo é considerar que tem a ver com falsidade, “duas caras”, fofoca… Proponho outras imagens: pense numa criança nos primeiros ano de vida. Ela vai experimentar com o mundo ao redor, com o ambiente, com as coisas, pessoas que estão ao seu alcance. Ela vai e volta, faz um caminho várias vezes, erra, erra, acerta, erra, acerta… É o signo da cartografia e não dos mapas que já estão desenhados e cristalizados. É o signo da multiplicidade, da complexidade, abertura de pontos de vista – e não redução. Tem um vídeo da @joutjout em que ela conversa com uma amiga sobre “aprender a aprender”. É essa ideia de que é mais importante aprender a aprender (questionar, pesquisar, etc.) do que se limitar a memorizar um “conteúdo” fixo –  já que o mundo está em constante mudança. Estamos em um momento sinistro em que o aprender, a educação, a arte, o pensar, o saber estão sendo atacados, vemos uma exaltação da ignorância, “acredito no que quero acreditar”. Ao mesmo tempo o moralismo burro, a brutalidade, o ódio bruto. Pois Gêmeos nesse momento pode falar de uma resistência do pensar, das linguagens, artes e saberes. Pode nos ensinar sobre os caminhos errantes da aprendizagem num mundo instável, a importância do questionamento, da investigação, abrir campos curiosos para que o pensamento possa ebolir. 

Elemento Terra

A terra assim como a água também é um elemento muitas vezes associado ao feminino, na astrologia e muito além dela. Metáfora do corpo, da nutrição, gestação… E que tipo de relação a cultura ocidental estabeleceu com a terra? Com o corpo? Com a alimentação? Com os povos originários? Tratada como coisa, a terra e os territórios foram tomados, coisa-objeto-sem vida que pode ser apropriada e consumida, explorada para produzir acumulação de riqueza. Ainda nos invade um pensamento que separa corpo e mente, como se não houvesse uma inteligência ou linguagem do corpo. Como se a terra, os territórios, os organismos, os corpos fossem coisa sem espírito. Assim os signos do elemento terra ganharam esteriótipos completamente tacanhos: Touro come, Virgem limpa, Capricórnio trabalha… Num exercício de criar analogias falar em terra me leva a pensar des-colonização, ecofeminismo, biopolítica, corpos disciplinados, poluição, agricultura, alimentação, povos originários, xamanismo… O elemento terra na astrologia é metáfora de tudo que tem matéria, corpo, tudo que acontece no espaço e no tempo. Convido pensar a terra na perspectiva que todos elementos da natureza são vivos (incluindo as rochas, a areia, o vento, os ossos, as estrelas…) e todos eles se comunicam a sua maneira. O papel da cientista, do pajé, da astróloga, do artista, da poeta é produzir conhecimento a partir da escuta dessas comunicações. “Eu estou apaixonado, por uma menina terra, signo de elemento terra, do mar se diz terra a vista, terra para o pé firmeza, terra para a mão carícia, outros astros lhe são guia…” A terra é o elemento da inteligência do corpo, uma linguagem muito primária que produz conhecimento a partir da experiência. A cultura moderna ocidental no entanto insiste em controlar, silenciar, dominar por número, tabelas e pílulas… Mesmo propostas de “bem-estar” muitas vezes seguem a mesma lógica. Um corpo que deve se submeter a um referencial externo e muitas vezes idealizado – ao invés de exercitar a capacidade de percepção, de se auto-observar. Para cartografar, mapear o elemento terra podemos perguntar qual nossa relação com o tempo? Com o silêncio? Com a experiência? Com a nutrição? Digestão? O que nos sustenta? Em qual território estamos? Pensar sobre práticas. Observar nossos gestos, no sentido amplo da palavra… Estou ruminando com minha Lua em Capricórnio o curso online de Lua e os quatro elementos. A proposta é criar essa prática de cartografia, de mapeamento a partir da astrologia e da arte. Sigo no tempo de germinar… Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

Fluorita, Anton watzl minerais

Elemento Fogo

O elemento fogo é o elemento masculino por excelência na astrologia. Como comentei no último texto sobre a água, a astrologia é uma linguagem amoral que cria significados a partir da observação da natureza. No entanto, as leituras astrológicas muitas vezes estão impregnadas da moral da época. E claro, também do machismo. Assim os signos de fogo (Áries, Leão, Sagitário) muitas vezes são tratados como os representantes da masculinidade tóxica: violentos, egocêntricos, mimados, sem empatia ou dimensão das outras pessoas, presos nas próprias fantasias de grandeza, incapazes de lidar com frustração…

De novo proponho um retorno ao elementar, como esse elemento aparece na natureza? O fogo é quente e luminoso, com ele podemos cozinhar a comida, nos esquentar no inverno, acender uma vela para enxergar no escuro. O fogo é vibrante, intenso, porém não tem corpo, é impossível segurar ou prender o fogo, o seu movimento é de sempre seguir em frente e sempre apontar para o alto. O fogo também queima e consome, está ligado ao princípio vital da criação e da destruição – um não existe sem o outro. É símbolo da chama do espírito, quando morremos ela se apaga. O Sol é uma bola de fogo que permite a vida no planeta e o amanhecer nos lembra sobre “a eterna novidade do mundo”, o novo persiste, a luz se apresenta depois de todas as noites.

Vivemos numa cultura que lida muito mal com a agressividade, um importante tema do fogo. Ou ela é vista como algo ruim, que deve ser negada e abafada ou explode violentamente, se afirmando de maneira fálica, subjugando. São dois lados da mesma moeda. É preciso produzir um saber e uma prática sobre o conflito, sobre as divergências. O fogo é o primeiro elemento da astrologia porque sem o corte, sem o calor, não se produz o novo. O atrito garante que exista diferença, mostra que nem tudo é igual, nem deve ser. Penso agressividade como um princípio vital que nos permite produzir o corte, dizer não e (principalmente) dizer sim, movimentar e criar, se diferenciar do resto. Por isso o fogo é o elemento que fala da singularidade.

Singular não é uma identidade fechada fálica “eu sou assim e pronto”, singular é a potência que traz o novo, de imaginar o que ainda não foi visto, é um lugar de abertura. Onde está o brilho e onde está o opaco na sua vida? Quais vias o calor encontra pra se manifestar? Ou é apenas explosão – ou implosão? O que te move, aquece, o que faz vibrar? .

J. M. W. Turner, paintings of the Burning of the Houses of Parliament (the Houses of Lords and Commons) beside the River Thames on 16th October, 1834 (III)

Elemento Água

O elemento água tradicionalmente representa o feminino. A astrologia é uma linguagem amoral que parte dos elementos da natureza para produzir significados. No entanto a moral de cada época sempre se infiltra nas leituras astrológicas. Com isso o elemento água ao longo do tempo ficou submetido as mesmas leituras machistas e patriarcais criadas sobre “o feminino”. Elemento dos afetos, dos vínculos e da subjetividade o elemento água ficou identificado com o irracional, a loucura, a histeria, a compulsão, o sentimentalismo. Como se a água fosse um elemento passivo, sem linguagem e sem capacidade de produzir conhecimento. Câncer e Peixes muitas vezes são retratados como signos idiotas que só sabem chorar, Câncer ainda por cima ficou reduzido a imagens da família pequeno-burguesa e do mundo doméstico. Escorpião por sua vez virou símbolo da loucura e da sexualidade desenfreada, retratado muitas vezes como se fosse uma prostituta maligna. 

Por isso antes de pensar nas simbologias, gosto de remeter aos elementos na natureza. A água é o elemento que mata a nossa sede, sobrevivemos muito mais tempo sem comida do que sem água. A água limpa e renova. Dos quatro elementos ele é o mais metamórfico, pode ser líquido, gasoso e sólido. A água sempre encontra passagem, sempre encontra o seu caminho e se guia pelo centro da terra, pela gravidade, sempre sabe qual direção tomar (daí as leituras sobre a intuição da água). A água é o elemento que tem a maior capacidade erosiva e que provoca as maiores transformações na paisagem. Ela dissolve montanhas, cria cânions e cavernas, fura pedras, alaga florestas e cidades. A força da água é descomunal, ela produz tsunamis, maremotos, erupções, alagamentos, chuvas de granizo, geadas… A água que existe hoje é a mesma água que os dinossauros tomaram, por isso é um elemento associado às imagens de ancestralidade, do primordial e com o selvagem e instintivo.  Tem água no nosso corpo, no ar, na maioria dos objetos e também nos outros corpos. Gosto de imaginar que podemos vibrar com essas correntezas de água que estão na gente e circulam ao nosso redor. É assim que a água se comunica, com sua receptividade e porosidade ela se afeta com o que está ao redor e assim pode saber sobre os outros seres. É uma linguagem afetiva que produz conhecimento pelo sensível e não pela dominação do “racional” sobre os objetos. É receptiva e ativa ao mesmo tempo, é capaz de violentos transbordamentos se não encontra saídas. Antes de uma astrologia interpretativa sugiro uma astrologia investigativa. A quais imagens a água nos remete? Como os fluxos afetivos circulam? Quais vazantes encontramos? Onde está úmido, nutritivo e onde está seco? Onde está represado, criando lodo? Com o que criamos liga, conexão?

Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

água – ha bun shu

Ateliê de Astrologia

Faz tempo que estou quebrando a cabeça pra fazer uma versão online dos ateliês de astrologia. De 2016 a 2019 dei um curso de formação em astrologia e criei alguns grupos de estudo com quem queria dar continuidade. Aos poucos fui radicalizando essa ideia de pensar astrologia como linguagem artística e um instrumento de criação. A ideia dos ateliês é passar um conteúdo básico de astrologia e ao mesmo tempo partir disso para investigar o próprio mapa astral de uma forma sensível e criativa. Usar os assuntos da astrologia para levantar questões, exercitar um auto-mapeamento e a força criativa.

Acho que não vai demorar muito pra estruturar esse curso mas confesso que é muito difícil produzir e criar algo nesse contexto de quarentena. Eu também trabalho como artista e vi todos os projetos que estava envolvida serem adiados sem pagamento. Conversando com outras pessoas autônomas antes mesmo da pandemia percebi que muita gente estava deprimida, ansiosa, com insônia, pânico, etc. A querida Bruna da @peluqueriafuriosas abriu meu olho e disse que fazemos um trabalho triplo: primeiro precisamos criar o trabalho, depois precisamos fazer o trabalho acontecer e por fim realizar – o curso, a leitura de mapa, o corte de cabelo, a roupa, etc. Além de tudo precisamos estar presentes nas redes sociais, ser carismáticas, interessantes…

.Com tudo isso que está acontecendo vejo que aos poucos as pessoas estão ganhando consciência sobre o trabalho das pessoas autônomas e artistas – e também de pesquisadores e cientistas. É preciso parar de romantizar “trabalhar com o que ama”. Isso só é gostoso pra quem tem outra renda, pra quem tem aluguel pra pagar é duro ao ponto de muitas vezes as coisas perderem sentido. 

Essa semana tive a feliz notícia que um amigo matemático conseguiu finalmente a bolsa de pós doutorado. Ele passou por muitos processos depressivos e quase abandonou a pesquisa. Disse pra ele coisas que servem pra mim mesma: Vivemos num mundo doente onde nos convencem que o essencial é supérfluo. Não podemos nos deixar abater por essas inversões perversas. Que bom que ainda tem gente que insiste em pensar e criar. Assim o mundo fica um pouco mais vivo e brilhante.

Áries

O Sol está em Áries! Tem duas imagens que gosto de usar para Áries, primeiro signo do zodíaco. A primeira é a imagem do Big Bang; a explosão original que dá início ao universo e lança com velocidade todo o cosmos em expansão. A outra é a imagem do parto, o ato de nascer, primeiro contato com a vida – de forma crua, selvagem e intensa como a vida há de ser. É preciso coragem para cortar o cordão umbilical e ir à luta, traçar um caminho singular. 

Tenho visto que Áries nos últimos anos se tornou o signo maldito da vez. As pessoas adoram falar como pessoas arianas são terríveis, Satanáries, etc. Tenho vontade de fazer camisetas com a frase “pessoas não são signos, signos não são pessoas”. Áries é o fogo cardinal, potência de colocar as coisas em ação, energia e vibração primordial que traz o movimento e dá início à vida. A astrologia parte da observação dos fenômenos da natureza para criar leituras sobre as experiências humanas. Um raio é bom ou mau caráter? Um carneiro é legal ou chato? Perguntas que não fazem sentido mas ainda assim as pessoas insistem em fazer da astrologia uma arte moral, cheia de julgamentos, qualidades e defeitos, que valoriza certos aspectos em detrimento de outros. 

Vivemos numa era que valoriza a imagem, as pessoas querem estar “bem relacionadas” e mostrar o melhor lado de si. Também querem estar bem apaziguadas, sem angústia ou fome de viver, um robô eficiente e morno que sai bem na foto. Pois Áries é um signo que fala sobre a beleza das coisas brutas e honestas, sem filtro, como as crianças que são, sendo. Um signo que nos conta sobre a importância da luta, nos diz que a ação nos mantém vivas e é preciso um ato vigoroso para romper a inércia e produzir diferença. Como disse uma querida amiga ariana: Julia, o importante é não ficar parada! Áries segue em frente abrindo novos caminhos.

Touro

Touro é o primeiro signo de terra do zodíaco, momento em que a força inicial do fogo ganha corpo, consistência, tempo. Se Áries é o Big-Bang que inicia o universo, Touro são os planetas entrando em órbita, se tornando redondos, condensação de poeira estelar. Um signo de encarnação, tornar carne, habitar a primeira casa que temos: nosso próprio corpo. Como o bebê que acaba de nascer e vai experimentar pelos sentidos o mundo ao redor. Sentir o sabor das coisas para conhecê-las, uma inteligência sinestésica que parte da escuta do próprio corpo para conhecer o mundo – o macio, o áspero, o salgado, o doce. Presença de montanha, reconhecimento do aqui e agora, busca por território, chão onde pisar, consistência. Um signo que cuida do que é primário pra nossa sobrevivência: nutrição, abrigo, repouso.

A terra é um elemento que fala dos processos do corpo, da matéria, do que tem forma, do que está sob as ordens do tempo-espaço. Só que vivemos numa cultura profundamente metafísica, separamos corpo e mente, usamos a Terra como se ela fosse uma coisa sem vida que podemos simplesmente nos apropriar. Por isso os signos de terra são reduzidos a coisas muito literais, Touro é retratado muitas vezes apenas como um signo que come, dorme e busca prazer.

Pra pensar em Touro gosto de trazer os antigos rituais de agradecimento à terra, rituais de fertilidade onde entregamos parte da colheita e do alimento à terra de onde viemos. Num mundo em que as pessoas estão tão alheias a si mesmas, consumidas pelo tempo da máquina, Touro pode nos dizer sobre a importância da ruminação, do reconhecimento dos tempos, dos processos. A nutrição não é apenas barriga cheia, envolve o processo de digestão, nosso corpo precisa de tempo pra absorver e tornar seu o que vem de fora. O sono não é apenas preguiça, é o momento em que produzimos memória e assimilamos tudo o que vivemos durante o dia. Touro é um signo muito primitivo, nos fala das coisas básicas da vida, a necessidade de estar aqui e não além. Vivemos no mundo da máquina, de pessoas robotizadas, anestesiadas e Touro nos fala da importância de voltar pros sentidos, pro sensível.

Um signo que pode nos ensinar sobre a inteligência do corpo, a inteligência da terra. Escutar o corpo para nos conhecer, conhecer o mundo e estar aqui com outra presença.

Júpiter e Plutão

Cotidianamente sou sequestrada por pensamentos pessimistas. Leio as notícias e por um tempo me sinto mortificada, minha potência e força criativa se paralisam. Muito se fala em fim do mundo… “O pessimismo é reacionário” tem sido uma espécie de mantra pra mim. Preciso sempre me relembrar de que esses discursos apocalípticos têm uma função política: roubar nossa capacidade de imaginar novos mundos, novas economias, novas políticas, novos modos de vida… Muitos mundos já se acabaram antes. O mundo dos meus ancestrais morreu há tempos mas ainda assim a força dos encantados, os cânticos, as danças e o olhar sobre o que é vital e sagrado ainda pulsa e se reinventa em mim e outras indígenas…

Júpiter e Plutão vão fazer conjunção algumas vezes em 2020. Júpiter traz questões sobre o alargamento da visão, a busca por um sentido maior, a capacidade imaginativa, planeta do júbilo e da festa, ele pode nos falar tanto da abundância quanto do transbordamento, perda de limites. Já Plutão é o senhor da vida e da morte, traz questões sobre a finitude, as intensidades, experiências de limiar, fala dos processos de decomposição e composição, do vital e da destrutividade, das potências de fênix. Estamos acostumados a pensar astrologia como uma prática de dar respostas, interpretar, traduzir mapas prontos. Pois proponho usar astrologia como exercício de indagação, de imaginação, levantamento de questões para mapear movimentos vivos. Prática de criação e mapeamento, e não de determinação.

Faço então um convite para usar o encontro entre Júpiter e Plutão para levantar algumas questões. São perguntas-bússola para um mapeamento do vital. Como criar estratégias para vivificar? Como cultivar a vitalidade? Como driblar a mortificação, o anestesiamento, com a força imaginativa? Diante de temas tão gigantes e coletivos como reconhecer o que está ao alcance de minha mão? Como encontrar a potência na vulnerabilidade? Como reconhecer os limites e criar com eles? Como cultivar a fé, a capacidade de confiar no invisível, no vir-a-ser, em outros mundos possíveis? Como enxergar a vida presente nos processos de decomposição?

É possível criar, compor com os resíduos do velho mundo? Com os restos de um velho-eu? É possível produzir adubo com o que morreu? Como fazer um estudo das intensidades? Qual a medida-intensidade entre o veneno e o antídoto? É possível encontrar processos curativos nos processos destrutivos? Como relembrar o festejo, a dança, o canto a um corpo anestesiado? É possível defender a alegria sem negar a dor, sem escapismos? Como cultivar o espírito de criança dentro de nós? Como escutar a pulsação do corpo por trás do anestesiamento?

E você? Quais estratégias você usa para vitalizar? Para driblar a mortificação? Consegue pensar em outras perguntas-questões? Escreva aqui nos comentários, curiosa em saber!

Por aqui tenho tentado dançar mais, com música bem alta na sala, também canto músicas sagradas pela casa sacudindo meu maracá, quando o corpo não consegue reagir vou assistir desenho animado, um filme de comédia, converso e fico em silêncio com os gatos, busco apoiar movimentos sociais que acredito, converso com as amizades e familiares. Escrever também tem sido um antídoto, esse é um texto-antídoto pra mim. Cada vez mais tenho reconhecido a potência da arte e do pensamento. Não a toa essas são as primeiras coisas perseguidas em um regime fascista.

O enterro da Sardinha – Goya

Espiritualidade, Genocídio e os psicopatas da Nova Era

Dia desses recebi por WhatsApp uma mensagem sobre a “evolução planetária” que estamos passando. Como se a pandemia fosse uma etapa de um “plano maior” espiritual para limpar o planeta das mazelas humanas. Nas últimas eleições que colocou esse genocida no poder também vi muitos discursos “espiritualizados” nesse sentido: para uma “nova era” acontecer “infelizmente” algumas pessoas e populações tem que sofrer e morrer. Claro que as pessoas que repetem esse tipo de discurso genocida nunca fazem parte das populações mais prejudicadas. Estão no conforto de seus apartamentos, da sua vida de classe média emanando “good vibes”, vibrando abundância… Muito fácil ter um senso de merecimento e de que o universo conspira a favor quando se está protegido da violência e precariedade. Acho assustador pessoas supostamente espiritualizadas que só querem lidar com o que é bom, belo, leve. Pelo visto a população dormindo na rua, usando o esgoto pra se lavar, não tem tanta evolução espiritual assim para emanar abundância pro universo e receber abundância de volta… Se devemos repensar as mazelas humanas? Com certeza. Se temos que criar outras formas de viver? Sem dúvida. Que devemos aprender algo com essa pandemia? Espero que sim. Que pessoas precisem morrer por causa de um grande plano maior para a evolução do planeta? Sinto muito, essa lógica é muito próxima da lógica nazista que via no genocídio de certas populações um mal necessário, uma “limpeza” para a evolução da humanidade. 

Sempre pensamos nos psicopatas como pessoas malignas e horrorosas que querem prejudicar os outros. Pois psicopatia nada mais é do que falta de empatia. Não reconhecer que outra pessoa é diferente de você, que a tua vivência não serve para toda humanidade, que ignora a condição dos outros. Pois a psicopatia pode ser muito simpática, ter rostinho plácido e dizer gratiluz! Faz tempo que reparo na disseminação dessa “espiritualidade” individualista e neo-liberal que ignora a dor alheia, que acha que os problemas do mundo se resolvem dentro da própria mente e da própria bolha social. “Aqui só entra good vibes” a dor e a miséria dos outros que fique de fora, bem longe da minha bolha de luz… Tich Nah Ahn mestre zen budista vietnamita e ativista social dizia que falar “budismo engajado” era uma redundância porque o budismo busca a iluminação e é impossível se iluminar quando existem pessoas em sofrimento ao seu lado. Penso espiritualidade como política, como nos relacionamos com os outros humanos, com o planeta, com a vida. Não vejo nenhum sentido numa espiritualidade sem empatia. Tem um vídeo muito interessante da pesquisadora Brené Brown que fala da diferença entre empatia e simpatia. Tem no YouTube, recomendo bastante para se imunizar desses discursos genocidas.

Meme por @astro_cats