Espiritualidade, Genocídio e os psicopatas da Nova Era

Dia desses recebi por WhatsApp uma mensagem sobre a “evolução planetária” que estamos passando. Como se a pandemia fosse uma etapa de um “plano maior” espiritual para limpar o planeta das mazelas humanas. Nas últimas eleições que colocou esse genocida no poder também vi muitos discursos “espiritualizados” nesse sentido: para uma “nova era” acontecer “infelizmente” algumas pessoas e populações tem que sofrer e morrer. Claro que as pessoas que repetem esse tipo de discurso genocida nunca fazem parte das populações mais prejudicadas. Estão no conforto de seus apartamentos, da sua vida de classe média emanando “good vibes”, vibrando abundância… Muito fácil ter um senso de merecimento e de que o universo conspira a favor quando se está protegido da violência e precariedade. Acho assustador pessoas supostamente espiritualizadas que só querem lidar com o que é bom, belo, leve. Pelo visto a população dormindo na rua, usando o esgoto pra se lavar, não tem tanta evolução espiritual assim para emanar abundância pro universo e receber abundância de volta… Se devemos repensar as mazelas humanas? Com certeza. Se temos que criar outras formas de viver? Sem dúvida. Que devemos aprender algo com essa pandemia? Espero que sim. Que pessoas precisem morrer por causa de um grande plano maior para a evolução do planeta? Sinto muito, essa lógica é muito próxima da lógica nazista que via no genocídio de certas populações um mal necessário, uma “limpeza” para a evolução da humanidade. 

Sempre pensamos nos psicopatas como pessoas malignas e horrorosas que querem prejudicar os outros. Pois psicopatia nada mais é do que falta de empatia. Não reconhecer que outra pessoa é diferente de você, que a tua vivência não serve para toda humanidade, que ignora a condição dos outros. Pois a psicopatia pode ser muito simpática, ter rostinho plácido e dizer gratiluz! Faz tempo que reparo na disseminação dessa “espiritualidade” individualista e neo-liberal que ignora a dor alheia, que acha que os problemas do mundo se resolvem dentro da própria mente e da própria bolha social. “Aqui só entra good vibes” a dor e a miséria dos outros que fique de fora, bem longe da minha bolha de luz… Tich Nah Ahn mestre zen budista vietnamita e ativista social dizia que falar “budismo engajado” era uma redundância porque o budismo busca a iluminação e é impossível se iluminar quando existem pessoas em sofrimento ao seu lado. Penso espiritualidade como política, como nos relacionamos com os outros humanos, com o planeta, com a vida. Não vejo nenhum sentido numa espiritualidade sem empatia. Tem um vídeo muito interessante da pesquisadora Brené Brown que fala da diferença entre empatia e simpatia. Tem no YouTube, recomendo bastante para se imunizar desses discursos genocidas.

Meme por @astro_cats