Dia da resistência indígena

Eu soube que era indígena na primeira série quando fui fazer um trabalho da escola e minha mãe me contou que a nossa família era indígena. Lembro até hoje de como fiquei chocada e como foi difícil de entender, na escola parecia que índio era uma coisa muito distante, quase mítica, que vivia sei lá aonde, fazia sei lá o quê. 

Minhas tias sempre falaram de si e da família como indígenas, diziam que a gente era índio bravo, fui criada quando pequena dentro de valores comunitários indígenas, no contato com as medicinas, numa família de benzedeiras. Quando vim criança pra São Paulo o meu primeiro choque cultural foi as crianças não dividirem a comida e se ofenderem ou darem desculpas quando pedia um pedaço. Eu sou da primeira geração da família que não passou fome e sempre aprendi que comida era de todo mundo que estivesse ali pra comer.

Minha mãe conseguiu ascender socialmente quando passou num concurso público e fez questão que a gente morasse em certos bairros de classe média alta e estudasse em certas escolas de São Paulo. Nesses espaços sempre fui “exótica” e ouvi incansavelmente como sou diferente, tenho um jeito diferente, minha personalidade muito forte, brava demais, selvagem, inadequada. Sempre achei que o choque cultural fosse por ser pernambucana, nordestina e ignorava que fui criada em cultura indígena.

Minha história é feita de camadas e camadas de não pertencimento, de sentimento de elo perdido, uma dor abismal sem nome me acompanha desde sempre. Faz poucos anos que finalmente descobrimos nossa etnia, Xukuru do Ororubá, do agreste de Pernambuco, não tão longe de onde minha avó nasceu. Sinto nesse processo que fui devolvida pra mim mesma e aos poucos tenho falado mais sobre isso, minha relação com a espiritualidade e as medicinas.

Ser indígena no Brasil é uma história de muita dor, humilhação, existir não-existindo, por isso tenham delicadeza pra tratar desse assunto. Minha história não é um causo pitoresco e interessante e não quero ouvir como é lindo ter cara de índia. O “dia do índio” é dia de trauma na escola e essa ferida só pode ser curada coletivamente e com muita luta. Por isso hoje e sempre é dia de resistência, não de comemoração.

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Se informem, compartilhem conteúdo de indígenas, somem na luta, colaborem com campanhas. Recomendo a programação da Tv Tamuya https://www.youtube.com/channel/UCiJtFa2xBiJE0rxHTZVRYjA

E colabore com a campanha Emergência Indígena na pandemia da Apib – Articulação dos povos indígenas https://apiboficial.org/

Os tempos da fratura – ou um trânsito literal de Urano

“Como encontrar outras temporalidades na cidade?”

Foi essa a pergunta que escolhi fazer. A proposta então era incorporar a questão; meu corpo uma grande pergunta. Das sensações que o atravessaram começamos a traçar um mapa, investigar direções.*

Ela disse que os outros tempos não estavam fora, mas paralelos. O tecido da minha roupa continha uma temporalidade própria, a madeira do chão de taco do meu apartamento, os diferentes tecidos que compõem meu corpo com seus diferentes ritmos. A gata pulou na janela. “É, ela também”.

Isso foi em outubro do ano passado eu acho. O mapa me levou a buscar outra cidade na cidade. Mudei de bairro, mudei pra uma casa, fui morar do lado do parque, mas o tempo central ainda corria na minha pele frenética, eletrizada, nos passos rápidos esbaforidos, nas olheiras insones.

“Essa casa parece a casa da infância de alguém”, me disseram logo depois da mudança. Fiquei feliz com aquela perspectiva. A nova casa sugeria outros tempos.

Estação Barra Funda dez e pouco da noite. Um mar de gente, desço a rampa no contrafluxo. Uma tropa de formigas enquanto um besourinho procura passagem. Vou pelo canto lentamente segurando o corrimão. Lembro que é hora da saída das universidades. 

Muitos olhares vão do meu rosto ao meu pé ao meu rosto novamente. Me estranham, eu estrangeira nesse novo corpo. Passa por mim uma jovem de bengala e nossos olhares se cruzam. “Será que as pessoas que usam muletas se reconhecem assim como as lésbicas se reconhecem quando andam na rua? Ou os corpos se percebem apenas porque habitam a mesma faixa temporal? Será que lésbicas habitam outra faixa temporal?”. Me divirto com essa ideia de uma dissidência no espaço-tempo.

No dia seguinte na mesma estação é preciso estar atenta para não ser atropelada. Paro e deixo passar. Daquelas pessoas olhando o celular, desvio. Procuro coordenar os passos. Encontrar um ritmo entre meus pontos de apoio e as respostas do chão. Corpos apressados cruzam minha direção. Meus pés são convocados a seguir os rastros de vento que deixam no caminho, mas preciso manter meu passo.

“Tão jovem…” eu ouvia por telepatia os olhares dos mais velhos. Lembrei de Dom Casmurro. “Por quê coxa, se bela? Por quê bela, se coxa?”. Era assim que ele dizia da moça que mancava? Não lembro direito. “Tão jovem e de muleta”. Machado de Assis se atualizava no metrô de São Paulo. Como seria receber esses olhares o tempo de uma vida? Eles colariam na minha pele e criariam uma identidade pra mim? Minha estação é a próxima, melhor levantar agora para conseguir chegar na porta a tempo.

Na Sé uma senhora chega ao meu lado, aquela mesma que estava no vagão e me fez pensar que poderia ser uma mulher da minha família. Tinha os olhos puxados, a pele escura, os cabelos grisalhos trançados perto da cabeça, um casaquinho verde, várias sacolas coloridas. “Vai na Igreja Deus é Amor, tem milagre todo dia, lá no Glicério, vai lá, tem cura todo dia, lá na igreja…”. Sorri em silêncio e continuei meu caminho. Ela seguiu o dela. 

Urano se rebela contra a tirania de Cronos, a ruptura inesperada quebra a continuidade dos dias. Suspensão do calendário. Penso na aberração de um mundo onde apenas um único tempo é válido. Um velho tempo de juventude frenética aos poucos se descola de minha pele. Me encontro em outra faixa temporal, outra espessura da vida, recorte de mundo. 

Como se meditasse, observo as pessoas apressadas passando por mim como fluxos de pensamento. Observo tudo passar, o trem passar, as portas se fechando a poucos passos de mim. Não posso correr. Os primeiros segundos na plataforma vazia são só meus. Uma outra frequência, outra velocidade produzindo um furo no real. 

Subo a escada rolante. De repente, no primeiro passo, um baque. Estômago à frente cabeça jogada pra trás. Procuro equilíbrio. Um segundo de estranhamento olho os degraus e vejo: a escada parou. Começo a dar risada, Urano descontínuo se presentifica novamente. Sigo rindo. Por um momento pareceu que meu passo havia congelado a escada. Coisa de criança pensar. 

Tempo-criança tempo-gratuito. Não fui eu que encontrei, fui encontrada. Aprendo a andar pela primeira vez, passos titubeantes e atentos. Agora agora agora agora agora agora… No paradoxo do corte elétrico uraniano: Kairós de lentidão. 

Como foi? Tava em casa andando de chinelo e meia, o chinelo enganchou no chão, o corpo foi e o pé torceu pra dentro. Ridículo. Quebrou. O pior é que eu tava com passagem comprada, ia viajar de férias na semana seguinte. Não, não deu, a política era escrota. Perdi. Foi logo antes do meu aniversário. Não, ainda vai ter um bom tempo de fisio pra fazer. Vem me visitar qualquer dia? 

Julia Francisca, outubro de 2017

* relato sobre a “Terapia Política” proposta pela artista Valentina Desideri. Experiência realizada como escambo por leitura de mapa astral.

Espiritualidade, Genocídio e os psicopatas da Nova Era

Dia desses recebi por WhatsApp uma mensagem sobre a “evolução planetária” que estamos passando. Como se a pandemia fosse uma etapa de um “plano maior” espiritual para limpar o planeta das mazelas humanas. Nas últimas eleições que colocou esse genocida no poder também vi muitos discursos “espiritualizados” nesse sentido: para uma “nova era” acontecer “infelizmente” algumas pessoas e populações tem que sofrer e morrer. Claro que as pessoas que repetem esse tipo de discurso genocida nunca fazem parte das populações mais prejudicadas. Estão no conforto de seus apartamentos, da sua vida de classe média emanando “good vibes”, vibrando abundância… Muito fácil ter um senso de merecimento e de que o universo conspira a favor quando se está protegido da violência e precariedade. Acho assustador pessoas supostamente espiritualizadas que só querem lidar com o que é bom, belo, leve. Pelo visto a população dormindo na rua, usando o esgoto pra se lavar, não tem tanta evolução espiritual assim para emanar abundância pro universo e receber abundância de volta… Se devemos repensar as mazelas humanas? Com certeza. Se temos que criar outras formas de viver? Sem dúvida. Que devemos aprender algo com essa pandemia? Espero que sim. Que pessoas precisem morrer por causa de um grande plano maior para a evolução do planeta? Sinto muito, essa lógica é muito próxima da lógica nazista que via no genocídio de certas populações um mal necessário, uma “limpeza” para a evolução da humanidade. 

Sempre pensamos nos psicopatas como pessoas malignas e horrorosas que querem prejudicar os outros. Pois psicopatia nada mais é do que falta de empatia. Não reconhecer que outra pessoa é diferente de você, que a tua vivência não serve para toda humanidade, que ignora a condição dos outros. Pois a psicopatia pode ser muito simpática, ter rostinho plácido e dizer gratiluz! Faz tempo que reparo na disseminação dessa “espiritualidade” individualista e neo-liberal que ignora a dor alheia, que acha que os problemas do mundo se resolvem dentro da própria mente e da própria bolha social. “Aqui só entra good vibes” a dor e a miséria dos outros que fique de fora, bem longe da minha bolha de luz… Tich Nah Ahn mestre zen budista vietnamita e ativista social dizia que falar “budismo engajado” era uma redundância porque o budismo busca a iluminação e é impossível se iluminar quando existem pessoas em sofrimento ao seu lado. Penso espiritualidade como política, como nos relacionamos com os outros humanos, com o planeta, com a vida. Não vejo nenhum sentido numa espiritualidade sem empatia. Tem um vídeo muito interessante da pesquisadora Brené Brown que fala da diferença entre empatia e simpatia. Tem no YouTube, recomendo bastante para se imunizar desses discursos genocidas.

Meme por @astro_cats

Vale uma leitura de mapa astral

Dessas coisas que eu adoro fazer.

Esse é um vale-presente de aniversário: “vale uma leitura de mapa astral para a Rafaela”.

O cartão foi feito à mão com caneta prateada, recortes e fita adesiva colorida.

Se quiser presentear alguém, pode pedir que eu faço um cartãozinho como este.

Depois, é só a pessoa mandar um e-mail com os dados de nascimento e podemos agendar. =)

envelope_cartão_frente

cartão_frente

cartão_costas

Farejando Lilith_ser terra

Da terra sangrenta, um ser de barro escuro toma forma

Da terra nasce primeira filha

sua carne, a carne da terra

Ela sabe, corpo que sabe

sentir a textura e os cheiros dos seres todos que habitam ao redor

ser terra

ser rocha

ser raíz

ser tronco

ser pele

ser pêlo

Ela tem olhos de vaca

seu olhar é plácido

contempla a beleza do que é

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> Julia Francisca, 2015.

[será essa uma Lilith em Touro?]

[Imagem: Estatueta feminina mais antiga já encontrada, produzida entre 25.000 e 22.000 a.C.
“Vênus de Willendorf”. Possui 11 cm e encontra-se no Museu de História Natural de Viena.]

Poesia para Áries

Ano novo na Astrologia.

O Sol entra em Áries, a roda do Zodíaco dá mais um giro.
A cada novo signo, uma poesia, uma imagem.
‪#‎tramaceleste‬ ‪#‎astrologia‬ ‪#‎poesia‬ ‪#‎áries‬
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Áries _ 20/março a 20/abril _ elemento fogo
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“Passagem das horas

(…)
Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas…

Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la…

Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,
Clarim claro da manhã ao fundo
Do semicírculo frio do horizonte,
Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas
Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis…
(…)”

Álvaro de Campos
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Retirado do livro “Quando fui Outro”, ed. Objetiva.
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Detalhe de pintura de William Turner, "The Burning of the House of Lords and commons".
Detalhe de pintura de William Turner, “The Burning of the House of Lords and commons”.

Poesia para peixes

Hoje entramos em Peixes.

Signo de água vastidão,

poético por si só.

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peixes karina

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A poesia é de Karina Rabinovitz, do livro “mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!”

Ilustração de Ernst Haeckel (1834-1919), do livro “Monographie der Medusen” (1879)