Os tempos da fratura – ou um trânsito literal de Urano

“Como encontrar outras temporalidades na cidade?”

Foi essa a pergunta que escolhi fazer. A proposta então era incorporar a questão; meu corpo uma grande pergunta. Das sensações que o atravessaram começamos a traçar um mapa, investigar direções.*

Ela disse que os outros tempos não estavam fora, mas paralelos. O tecido da minha roupa continha uma temporalidade própria, a madeira do chão de taco do meu apartamento, os diferentes tecidos que compõem meu corpo com seus diferentes ritmos. A gata pulou na janela. “É, ela também”.

Isso foi em outubro do ano passado eu acho. O mapa me levou a buscar outra cidade na cidade. Mudei de bairro, mudei pra uma casa, fui morar do lado do parque, mas o tempo central ainda corria na minha pele frenética, eletrizada, nos passos rápidos esbaforidos, nas olheiras insones.

“Essa casa parece a casa da infância de alguém”, me disseram logo depois da mudança. Fiquei feliz com aquela perspectiva. A nova casa sugeria outros tempos.

Estação Barra Funda dez e pouco da noite. Um mar de gente, desço a rampa no contrafluxo. Uma tropa de formigas enquanto um besourinho procura passagem. Vou pelo canto lentamente segurando o corrimão. Lembro que é hora da saída das universidades. 

Muitos olhares vão do meu rosto ao meu pé ao meu rosto novamente. Me estranham, eu estrangeira nesse novo corpo. Passa por mim uma jovem de bengala e nossos olhares se cruzam. “Será que as pessoas que usam muletas se reconhecem assim como as lésbicas se reconhecem quando andam na rua? Ou os corpos se percebem apenas porque habitam a mesma faixa temporal? Será que lésbicas habitam outra faixa temporal?”. Me divirto com essa ideia de uma dissidência no espaço-tempo.

No dia seguinte na mesma estação é preciso estar atenta para não ser atropelada. Paro e deixo passar. Daquelas pessoas olhando o celular, desvio. Procuro coordenar os passos. Encontrar um ritmo entre meus pontos de apoio e as respostas do chão. Corpos apressados cruzam minha direção. Meus pés são convocados a seguir os rastros de vento que deixam no caminho, mas preciso manter meu passo.

“Tão jovem…” eu ouvia por telepatia os olhares dos mais velhos. Lembrei de Dom Casmurro. “Por quê coxa, se bela? Por quê bela, se coxa?”. Era assim que ele dizia da moça que mancava? Não lembro direito. “Tão jovem e de muleta”. Machado de Assis se atualizava no metrô de São Paulo. Como seria receber esses olhares o tempo de uma vida? Eles colariam na minha pele e criariam uma identidade pra mim? Minha estação é a próxima, melhor levantar agora para conseguir chegar na porta a tempo.

Na Sé uma senhora chega ao meu lado, aquela mesma que estava no vagão e me fez pensar que poderia ser uma mulher da minha família. Tinha os olhos puxados, a pele escura, os cabelos grisalhos trançados perto da cabeça, um casaquinho verde, várias sacolas coloridas. “Vai na Igreja Deus é Amor, tem milagre todo dia, lá no Glicério, vai lá, tem cura todo dia, lá na igreja…”. Sorri em silêncio e continuei meu caminho. Ela seguiu o dela. 

Urano se rebela contra a tirania de Cronos, a ruptura inesperada quebra a continuidade dos dias. Suspensão do calendário. Penso na aberração de um mundo onde apenas um único tempo é válido. Um velho tempo de juventude frenética aos poucos se descola de minha pele. Me encontro em outra faixa temporal, outra espessura da vida, recorte de mundo. 

Como se meditasse, observo as pessoas apressadas passando por mim como fluxos de pensamento. Observo tudo passar, o trem passar, as portas se fechando a poucos passos de mim. Não posso correr. Os primeiros segundos na plataforma vazia são só meus. Uma outra frequência, outra velocidade produzindo um furo no real. 

Subo a escada rolante. De repente, no primeiro passo, um baque. Estômago à frente cabeça jogada pra trás. Procuro equilíbrio. Um segundo de estranhamento olho os degraus e vejo: a escada parou. Começo a dar risada, Urano descontínuo se presentifica novamente. Sigo rindo. Por um momento pareceu que meu passo havia congelado a escada. Coisa de criança pensar. 

Tempo-criança tempo-gratuito. Não fui eu que encontrei, fui encontrada. Aprendo a andar pela primeira vez, passos titubeantes e atentos. Agora agora agora agora agora agora… No paradoxo do corte elétrico uraniano: Kairós de lentidão. 

Como foi? Tava em casa andando de chinelo e meia, o chinelo enganchou no chão, o corpo foi e o pé torceu pra dentro. Ridículo. Quebrou. O pior é que eu tava com passagem comprada, ia viajar de férias na semana seguinte. Não, não deu, a política era escrota. Perdi. Foi logo antes do meu aniversário. Não, ainda vai ter um bom tempo de fisio pra fazer. Vem me visitar qualquer dia? 

Julia Francisca, outubro de 2017

* relato sobre a “Terapia Política” proposta pela artista Valentina Desideri. Experiência realizada como escambo por leitura de mapa astral.

Sol-Plutão

Sobre um grande cânion, erguem-se formações rochosas…

É constrangedor encontrar alguém da minha vida passada por acaso na rua. Tenho vontade de fugir. Ela não sabe que morri? Por quê ela fala comigo como se me conhecesse? Reconhecesse.

Quando tinha sete anos soube de uma etnia indígena em que as pessoas trocam de nome a cada rito de passagem. Fiquei encantada com isso. Algo em mim já sabia que iria morrer em vida muitas vezes.

Como explicar, aquela que você viu pela última vez – há dois anos atrás – não existe mais. Cada ano é um giro da Terra em torno do Sol.

Como eu gostaria de ter outro nome. Alguma indicação. Encontrar a pessoa na rua e dizer “meu nome hoje é este”. Quando acho que vou conseguir me alcançar, me tocar, algo já se desfez. O “mim” escapa, nunca alcanço. No espelho, desde criança, olho desfocada para um ponto entre meus olhos. O rosto se desfigura, vai se transformando em animais, velhas, crianças, homens estranhos, figuras de outro tempo, seres, mulheres de pedra, de raiz, manchas de cor, uma pintura de Lucian Freud…

Eu agora me vejo de dentro, mas a visão do fora ainda é assustadora. Vídeos, fotos, quem está ali? Sem funerais trágicos, desejo outros enredos. Diante de mim, novamente a vida me rasgando, os encontros me rasgando, me obrigando a estar sempre à frente ou a um passo de chegar.

Hoje menos. Hoje existem resgates. Descida à Hades, buscar Perséfone raptada. Não apaguei meus antigos nomes. Guardo cada batismo nesse altar imaterial, sem flores ou ícones. Um altarzinho para recolher minhas mortas.

Cada fim de relação, cada rompimento, é morte. Sei do paradoxo, não precisa vir me falar de renascimento. Mas o que sinto é uma morte contundente. Tem que abaixar a cabeça quando se chega a Seu reino.

Hades entronado.

ilustração por Julia Francisca, nanquim sobre papel, 2010.

[A cena cinematográfica que mais me fascina; o último sonho de Kurosawa. Cortejo de crianças. O velho colorido. Fúnebre e alegre. Dança.]

Sempre tem alguma parte de mim em decomposição. Pessoas dentro de mim que não tive a chance de fazer velório. Pessoas que matei. Pessoas que me mataram… Pessoas que fui resgatar lá em baixo.

Há pouco tempo tenho uma composteira em casa, cheia de minhocas. Com chorume, alimento as plantas e afasto pragas.

[Claro que chuvisca lágrima no altar de dentro. Veja, faz bem regar os vasos.]

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Julia Francisca, dezembro, 2015.