Elemento Ar

Fascismo, ascenção da extrema direita, discurso de ódio, desmonte das políticas de saúde, cultura, educação, desgoverno, desinformação, fake news… O quê isso tem a ver com o elemento ar? A astrologia é uma linguagem que pode ser usada para falar de qualquer assunto, ela tem um vocabulário próprio que serve para produzir leituras e sentidos. Os signos de ar – Gêmeos, Libra e Aquário – são os únicos do zodíaco que não tem representação animal. O ar é O elemento da cultura humana, do que produzimos no contato com nossa comunidade, com nossa espécie (não vou entrar em debates da antropologia agora, vamos ficar com o senso comum do que entendemos por cultura). Todos os campos de conhecimento pertencem ao ar, é o elemento que fala do invisível que circula entre nós, é pelo ar que o som da nossa voz chega aos ouvidos dos outros, elemento do patrimônio imaterial, da história, da política, das artes, das ciências, das linguagens, do ensino e aprendizagem, dos códigos sociais, da ética… .Passamos de um momento histórico de super valorização do pensamento “racional”, abstrato, técnico (cheio de problemas colonizadores persupuesto) e chegamos nesse novo momento onde toda forma de produção de saber parece estar sendo atacada. Ouvi uma frase na última eleição que até hoje não sai da minha cabeça: “é fake news mas eu acredito”. Que tipo de diálogo podemos travar com alguém que deliberadamente abriu mão da capacidade de pensar? “Acredito no que quero acreditar” é um desmantelamento de qualquer parâmetro para produzir conhecimento e diálogo. Uma ofensa para todos os signos de ar e o que eles representam. O ar é o elemento que questiona, que faz perguntas, que circula sobre uma situação para olhar de outros ângulos, é um elemento que fala da capacidade de ver o invisível, de criar o que ainda não foi visto. Que trocas estabelecemos com nossa vizinhança, com o espaço público, com os grupos que fazemos parte, com a aldeia, com o bairro, com o quilombo, com a cidade, com o país, com a América Latina…? Elemento da sociabilidade. Gêmeos abre o campo das perguntas e experimentação para aprender e criar nomes, Libra vai abrir para os encontros, relacionamentos e os diálogos e Aquário vai pensar nesses processos num nível amplo e coletivo para imaginar o futuro.
Por quê é importante a astrologia falar de fascismo? A resposta mais primária é que temos que discutir sobre isso em todos os espaços. Mas existe um outro motivo importante: essa “área” muito próxima do esoterismo, misticismo, espiritualismo muitas vezes é atravessada pelas ideias de determinismo, “plenitude”, “harmonia total”, apaziguamento das dúvidas, busca por um “todo”, um “absoluto iluminado” . Claro que há muitas leituras filosóficas possíveis para esses termos mas observo que muitas vezes o discurso da “harmonia total” flerta com o pensamento totalitário. Se devemos estar inteiramente “plenos”, se a harmonia deve prevalecer acima de tudo, qual espaço há para o questionamento, para a discussão, para outros olhares e consequentemente para a diferença? E é isso que o fascismo e totalitarismo prega: a eliminação de qualquer diferença. Extermínio literal pelo genocídio e extermínio simbólico através da censura e manipulação do discurso. Pois o ar é o elemento que ama a diferença. Libra muitas vezes é pintado como signo romântico por ser regido pela deusa do amor Vênus mas o amor de Libra não se resume a encontrar alguém pra casar, é o amor pela interlocução, pela potência de existência que o encontro com o outro permite. Esse amor pelo “outro” não se resume as pessoas, mas também as ideias, pontos de vista diferente que expandem nosso contato com a vida. Esse é um amor que todos os signos de ar partilham pois esse é o elemento que fala da potência humana de criar no encontro com os outros, de transformar o mundo a partir desse contato, de não se submeter a destinos prontos e determinados.  Todos os elementos falam de princípios vitais e no caso do ar o grande assunto é a potência da linguagem e aprendizagem. Não importa se a pessoa tem uma condição neurológica, todas as pessoas têm a potência da linguagem e da aprendizagem (inclusive as pessoas bicho, planta, pedra mas isso é outra conversa). A linguagem produz singularidade e ao mesmo tempo é o que temos em comum, é o que permite nos organizar, nos associar, conversar, partilhar.
A crise que vivemos é ética e estética, devemos pensar nas imagens e discursos  que queremos produzir se quisermos criar outras convivências menos violentas e estúpidas. O ar pode nos ensinar sobre a importância do questionamento, da pesquisa, do olhar complexo que considera diversos pontos de vista, do valor da diferença. Estamos em um momento onde a asfixia não é apenas metáfora e estudar, pesquisar, dialogar, produzir arte é exercício de oxigenação, de resistência. Não é possível tolerar a intolerância, no limite estamos falando de uma defesa da própria vida, do vital.

Homenagem a Goya – Odilon Redon, 1885

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