Gêmeos

O Sol está em Gêmeos, o ar mutável do zodíaco. Vênus também vai passar algum tempo nesse signo. O ar é o único elemento do zodíaco que não tem representação animal. É o elemento da cultura, da linguagem humana, disso que criamos na troca com a nossa comunidade. Gêmeos é o primeiro ar do zodíaco. Gosto de pensar que ele traz essa imagem do aprender a falar, exercício de nomear as coisas, como dois bebês conversando, quando o som e o significado não estão fechados. É um signo que fala da liberdade para imaginar, potência de olhar além do que já está visto. Depois que as “coisas” se formam na terra fixa de Touro elas devem circular e criar trocas entre si, aí temos o signo de Gêmeos. Ar nômade, da criação de novos caminhos, da liberdade e aleatoriedade de se brincar com as linguagens. Uma moralização comum na leitura desse signo é considerar que tem a ver com falsidade, “duas caras”, fofoca… Proponho outras imagens: pense numa criança nos primeiros ano de vida. Ela vai experimentar com o mundo ao redor, com o ambiente, com as coisas, pessoas que estão ao seu alcance. Ela vai e volta, faz um caminho várias vezes, erra, erra, acerta, erra, acerta… É o signo da cartografia e não dos mapas que já estão desenhados e cristalizados. É o signo da multiplicidade, da complexidade, abertura de pontos de vista – e não redução. Tem um vídeo da @joutjout em que ela conversa com uma amiga sobre “aprender a aprender”. É essa ideia de que é mais importante aprender a aprender (questionar, pesquisar, etc.) do que se limitar a memorizar um “conteúdo” fixo –  já que o mundo está em constante mudança. Estamos em um momento sinistro em que o aprender, a educação, a arte, o pensar, o saber estão sendo atacados, vemos uma exaltação da ignorância, “acredito no que quero acreditar”. Ao mesmo tempo o moralismo burro, a brutalidade, o ódio bruto. Pois Gêmeos nesse momento pode falar de uma resistência do pensar, das linguagens, artes e saberes. Pode nos ensinar sobre os caminhos errantes da aprendizagem num mundo instável, a importância do questionamento, da investigação, abrir campos curiosos para que o pensamento possa ebolir. 

Elemento Terra

A terra assim como a água também é um elemento muitas vezes associado ao feminino, na astrologia e muito além dela. Metáfora do corpo, da nutrição, gestação… E que tipo de relação a cultura ocidental estabeleceu com a terra? Com o corpo? Com a alimentação? Com os povos originários? Tratada como coisa, a terra e os territórios foram tomados, coisa-objeto-sem vida que pode ser apropriada e consumida, explorada para produzir acumulação de riqueza. Ainda nos invade um pensamento que separa corpo e mente, como se não houvesse uma inteligência ou linguagem do corpo. Como se a terra, os territórios, os organismos, os corpos fossem coisa sem espírito. Assim os signos do elemento terra ganharam esteriótipos completamente tacanhos: Touro come, Virgem limpa, Capricórnio trabalha… Num exercício de criar analogias falar em terra me leva a pensar des-colonização, ecofeminismo, biopolítica, corpos disciplinados, poluição, agricultura, alimentação, povos originários, xamanismo… O elemento terra na astrologia é metáfora de tudo que tem matéria, corpo, tudo que acontece no espaço e no tempo. Convido pensar a terra na perspectiva que todos elementos da natureza são vivos (incluindo as rochas, a areia, o vento, os ossos, as estrelas…) e todos eles se comunicam a sua maneira. O papel da cientista, do pajé, da astróloga, do artista, da poeta é produzir conhecimento a partir da escuta dessas comunicações. “Eu estou apaixonado, por uma menina terra, signo de elemento terra, do mar se diz terra a vista, terra para o pé firmeza, terra para a mão carícia, outros astros lhe são guia…” A terra é o elemento da inteligência do corpo, uma linguagem muito primária que produz conhecimento a partir da experiência. A cultura moderna ocidental no entanto insiste em controlar, silenciar, dominar por número, tabelas e pílulas… Mesmo propostas de “bem-estar” muitas vezes seguem a mesma lógica. Um corpo que deve se submeter a um referencial externo e muitas vezes idealizado – ao invés de exercitar a capacidade de percepção, de se auto-observar. Para cartografar, mapear o elemento terra podemos perguntar qual nossa relação com o tempo? Com o silêncio? Com a experiência? Com a nutrição? Digestão? O que nos sustenta? Em qual território estamos? Pensar sobre práticas. Observar nossos gestos, no sentido amplo da palavra… Estou ruminando com minha Lua em Capricórnio o curso online de Lua e os quatro elementos. A proposta é criar essa prática de cartografia, de mapeamento a partir da astrologia e da arte. Sigo no tempo de germinar… Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

Fluorita, Anton watzl minerais

Elemento Fogo

O elemento fogo é o elemento masculino por excelência na astrologia. Como comentei no último texto sobre a água, a astrologia é uma linguagem amoral que cria significados a partir da observação da natureza. No entanto, as leituras astrológicas muitas vezes estão impregnadas da moral da época. E claro, também do machismo. Assim os signos de fogo (Áries, Leão, Sagitário) muitas vezes são tratados como os representantes da masculinidade tóxica: violentos, egocêntricos, mimados, sem empatia ou dimensão das outras pessoas, presos nas próprias fantasias de grandeza, incapazes de lidar com frustração…

De novo proponho um retorno ao elementar, como esse elemento aparece na natureza? O fogo é quente e luminoso, com ele podemos cozinhar a comida, nos esquentar no inverno, acender uma vela para enxergar no escuro. O fogo é vibrante, intenso, porém não tem corpo, é impossível segurar ou prender o fogo, o seu movimento é de sempre seguir em frente e sempre apontar para o alto. O fogo também queima e consome, está ligado ao princípio vital da criação e da destruição – um não existe sem o outro. É símbolo da chama do espírito, quando morremos ela se apaga. O Sol é uma bola de fogo que permite a vida no planeta e o amanhecer nos lembra sobre “a eterna novidade do mundo”, o novo persiste, a luz se apresenta depois de todas as noites.

Vivemos numa cultura que lida muito mal com a agressividade, um importante tema do fogo. Ou ela é vista como algo ruim, que deve ser negada e abafada ou explode violentamente, se afirmando de maneira fálica, subjugando. São dois lados da mesma moeda. É preciso produzir um saber e uma prática sobre o conflito, sobre as divergências. O fogo é o primeiro elemento da astrologia porque sem o corte, sem o calor, não se produz o novo. O atrito garante que exista diferença, mostra que nem tudo é igual, nem deve ser. Penso agressividade como um princípio vital que nos permite produzir o corte, dizer não e (principalmente) dizer sim, movimentar e criar, se diferenciar do resto. Por isso o fogo é o elemento que fala da singularidade.

Singular não é uma identidade fechada fálica “eu sou assim e pronto”, singular é a potência que traz o novo, de imaginar o que ainda não foi visto, é um lugar de abertura. Onde está o brilho e onde está o opaco na sua vida? Quais vias o calor encontra pra se manifestar? Ou é apenas explosão – ou implosão? O que te move, aquece, o que faz vibrar? .

J. M. W. Turner, paintings of the Burning of the Houses of Parliament (the Houses of Lords and Commons) beside the River Thames on 16th October, 1834 (III)

Elemento Água

O elemento água tradicionalmente representa o feminino. A astrologia é uma linguagem amoral que parte dos elementos da natureza para produzir significados. No entanto a moral de cada época sempre se infiltra nas leituras astrológicas. Com isso o elemento água ao longo do tempo ficou submetido as mesmas leituras machistas e patriarcais criadas sobre “o feminino”. Elemento dos afetos, dos vínculos e da subjetividade o elemento água ficou identificado com o irracional, a loucura, a histeria, a compulsão, o sentimentalismo. Como se a água fosse um elemento passivo, sem linguagem e sem capacidade de produzir conhecimento. Câncer e Peixes muitas vezes são retratados como signos idiotas que só sabem chorar, Câncer ainda por cima ficou reduzido a imagens da família pequeno-burguesa e do mundo doméstico. Escorpião por sua vez virou símbolo da loucura e da sexualidade desenfreada, retratado muitas vezes como se fosse uma prostituta maligna. 

Por isso antes de pensar nas simbologias, gosto de remeter aos elementos na natureza. A água é o elemento que mata a nossa sede, sobrevivemos muito mais tempo sem comida do que sem água. A água limpa e renova. Dos quatro elementos ele é o mais metamórfico, pode ser líquido, gasoso e sólido. A água sempre encontra passagem, sempre encontra o seu caminho e se guia pelo centro da terra, pela gravidade, sempre sabe qual direção tomar (daí as leituras sobre a intuição da água). A água é o elemento que tem a maior capacidade erosiva e que provoca as maiores transformações na paisagem. Ela dissolve montanhas, cria cânions e cavernas, fura pedras, alaga florestas e cidades. A força da água é descomunal, ela produz tsunamis, maremotos, erupções, alagamentos, chuvas de granizo, geadas… A água que existe hoje é a mesma água que os dinossauros tomaram, por isso é um elemento associado às imagens de ancestralidade, do primordial e com o selvagem e instintivo.  Tem água no nosso corpo, no ar, na maioria dos objetos e também nos outros corpos. Gosto de imaginar que podemos vibrar com essas correntezas de água que estão na gente e circulam ao nosso redor. É assim que a água se comunica, com sua receptividade e porosidade ela se afeta com o que está ao redor e assim pode saber sobre os outros seres. É uma linguagem afetiva que produz conhecimento pelo sensível e não pela dominação do “racional” sobre os objetos. É receptiva e ativa ao mesmo tempo, é capaz de violentos transbordamentos se não encontra saídas. Antes de uma astrologia interpretativa sugiro uma astrologia investigativa. A quais imagens a água nos remete? Como os fluxos afetivos circulam? Quais vazantes encontramos? Onde está úmido, nutritivo e onde está seco? Onde está represado, criando lodo? Com o que criamos liga, conexão?

Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

água – ha bun shu