Júpiter e Plutão

Cotidianamente sou sequestrada por pensamentos pessimistas. Leio as notícias e por um tempo me sinto mortificada, minha potência e força criativa se paralisam. Muito se fala em fim do mundo… “O pessimismo é reacionário” tem sido uma espécie de mantra pra mim. Preciso sempre me relembrar de que esses discursos apocalípticos têm uma função política: roubar nossa capacidade de imaginar novos mundos, novas economias, novas políticas, novos modos de vida… Muitos mundos já se acabaram antes. O mundo dos meus ancestrais morreu há tempos mas ainda assim a força dos encantados, os cânticos, as danças e o olhar sobre o que é vital e sagrado ainda pulsa e se reinventa em mim e outras indígenas…

Júpiter e Plutão vão fazer conjunção algumas vezes em 2020. Júpiter traz questões sobre o alargamento da visão, a busca por um sentido maior, a capacidade imaginativa, planeta do júbilo e da festa, ele pode nos falar tanto da abundância quanto do transbordamento, perda de limites. Já Plutão é o senhor da vida e da morte, traz questões sobre a finitude, as intensidades, experiências de limiar, fala dos processos de decomposição e composição, do vital e da destrutividade, das potências de fênix. Estamos acostumados a pensar astrologia como uma prática de dar respostas, interpretar, traduzir mapas prontos. Pois proponho usar astrologia como exercício de indagação, de imaginação, levantamento de questões para mapear movimentos vivos. Prática de criação e mapeamento, e não de determinação.

Faço então um convite para usar o encontro entre Júpiter e Plutão para levantar algumas questões. São perguntas-bússola para um mapeamento do vital. Como criar estratégias para vivificar? Como cultivar a vitalidade? Como driblar a mortificação, o anestesiamento, com a força imaginativa? Diante de temas tão gigantes e coletivos como reconhecer o que está ao alcance de minha mão? Como encontrar a potência na vulnerabilidade? Como reconhecer os limites e criar com eles? Como cultivar a fé, a capacidade de confiar no invisível, no vir-a-ser, em outros mundos possíveis? Como enxergar a vida presente nos processos de decomposição?

É possível criar, compor com os resíduos do velho mundo? Com os restos de um velho-eu? É possível produzir adubo com o que morreu? Como fazer um estudo das intensidades? Qual a medida-intensidade entre o veneno e o antídoto? É possível encontrar processos curativos nos processos destrutivos? Como relembrar o festejo, a dança, o canto a um corpo anestesiado? É possível defender a alegria sem negar a dor, sem escapismos? Como cultivar o espírito de criança dentro de nós? Como escutar a pulsação do corpo por trás do anestesiamento?

E você? Quais estratégias você usa para vitalizar? Para driblar a mortificação? Consegue pensar em outras perguntas-questões? Escreva aqui nos comentários, curiosa em saber!

Por aqui tenho tentado dançar mais, com música bem alta na sala, também canto músicas sagradas pela casa sacudindo meu maracá, quando o corpo não consegue reagir vou assistir desenho animado, um filme de comédia, converso e fico em silêncio com os gatos, busco apoiar movimentos sociais que acredito, converso com as amizades e familiares. Escrever também tem sido um antídoto, esse é um texto-antídoto pra mim. Cada vez mais tenho reconhecido a potência da arte e do pensamento. Não a toa essas são as primeiras coisas perseguidas em um regime fascista.

O enterro da Sardinha – Goya

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