Ateliê de Astrologia

Faz tempo que estou quebrando a cabeça pra fazer uma versão online dos ateliês de astrologia. De 2016 a 2019 dei um curso de formação em astrologia e criei alguns grupos de estudo com quem queria dar continuidade. Aos poucos fui radicalizando essa ideia de pensar astrologia como linguagem artística e um instrumento de criação. A ideia dos ateliês é passar um conteúdo básico de astrologia e ao mesmo tempo partir disso para investigar o próprio mapa astral de uma forma sensível e criativa. Usar os assuntos da astrologia para levantar questões, exercitar um auto-mapeamento e a força criativa.

Acho que não vai demorar muito pra estruturar esse curso mas confesso que é muito difícil produzir e criar algo nesse contexto de quarentena. Eu também trabalho como artista e vi todos os projetos que estava envolvida serem adiados sem pagamento. Conversando com outras pessoas autônomas antes mesmo da pandemia percebi que muita gente estava deprimida, ansiosa, com insônia, pânico, etc. A querida Bruna da @peluqueriafuriosas abriu meu olho e disse que fazemos um trabalho triplo: primeiro precisamos criar o trabalho, depois precisamos fazer o trabalho acontecer e por fim realizar – o curso, a leitura de mapa, o corte de cabelo, a roupa, etc. Além de tudo precisamos estar presentes nas redes sociais, ser carismáticas, interessantes…

.Com tudo isso que está acontecendo vejo que aos poucos as pessoas estão ganhando consciência sobre o trabalho das pessoas autônomas e artistas – e também de pesquisadores e cientistas. É preciso parar de romantizar “trabalhar com o que ama”. Isso só é gostoso pra quem tem outra renda, pra quem tem aluguel pra pagar é duro ao ponto de muitas vezes as coisas perderem sentido. 

Essa semana tive a feliz notícia que um amigo matemático conseguiu finalmente a bolsa de pós doutorado. Ele passou por muitos processos depressivos e quase abandonou a pesquisa. Disse pra ele coisas que servem pra mim mesma: Vivemos num mundo doente onde nos convencem que o essencial é supérfluo. Não podemos nos deixar abater por essas inversões perversas. Que bom que ainda tem gente que insiste em pensar e criar. Assim o mundo fica um pouco mais vivo e brilhante.

Áries

O Sol está em Áries! Tem duas imagens que gosto de usar para Áries, primeiro signo do zodíaco. A primeira é a imagem do Big Bang; a explosão original que dá início ao universo e lança com velocidade todo o cosmos em expansão. A outra é a imagem do parto, o ato de nascer, primeiro contato com a vida – de forma crua, selvagem e intensa como a vida há de ser. É preciso coragem para cortar o cordão umbilical e ir à luta, traçar um caminho singular. 

Tenho visto que Áries nos últimos anos se tornou o signo maldito da vez. As pessoas adoram falar como pessoas arianas são terríveis, Satanáries, etc. Tenho vontade de fazer camisetas com a frase “pessoas não são signos, signos não são pessoas”. Áries é o fogo cardinal, potência de colocar as coisas em ação, energia e vibração primordial que traz o movimento e dá início à vida. A astrologia parte da observação dos fenômenos da natureza para criar leituras sobre as experiências humanas. Um raio é bom ou mau caráter? Um carneiro é legal ou chato? Perguntas que não fazem sentido mas ainda assim as pessoas insistem em fazer da astrologia uma arte moral, cheia de julgamentos, qualidades e defeitos, que valoriza certos aspectos em detrimento de outros. 

Vivemos numa era que valoriza a imagem, as pessoas querem estar “bem relacionadas” e mostrar o melhor lado de si. Também querem estar bem apaziguadas, sem angústia ou fome de viver, um robô eficiente e morno que sai bem na foto. Pois Áries é um signo que fala sobre a beleza das coisas brutas e honestas, sem filtro, como as crianças que são, sendo. Um signo que nos conta sobre a importância da luta, nos diz que a ação nos mantém vivas e é preciso um ato vigoroso para romper a inércia e produzir diferença. Como disse uma querida amiga ariana: Julia, o importante é não ficar parada! Áries segue em frente abrindo novos caminhos.

Touro

Touro é o primeiro signo de terra do zodíaco, momento em que a força inicial do fogo ganha corpo, consistência, tempo. Se Áries é o Big-Bang que inicia o universo, Touro são os planetas entrando em órbita, se tornando redondos, condensação de poeira estelar. Um signo de encarnação, tornar carne, habitar a primeira casa que temos: nosso próprio corpo. Como o bebê que acaba de nascer e vai experimentar pelos sentidos o mundo ao redor. Sentir o sabor das coisas para conhecê-las, uma inteligência sinestésica que parte da escuta do próprio corpo para conhecer o mundo – o macio, o áspero, o salgado, o doce. Presença de montanha, reconhecimento do aqui e agora, busca por território, chão onde pisar, consistência. Um signo que cuida do que é primário pra nossa sobrevivência: nutrição, abrigo, repouso.

A terra é um elemento que fala dos processos do corpo, da matéria, do que tem forma, do que está sob as ordens do tempo-espaço. Só que vivemos numa cultura profundamente metafísica, separamos corpo e mente, usamos a Terra como se ela fosse uma coisa sem vida que podemos simplesmente nos apropriar. Por isso os signos de terra são reduzidos a coisas muito literais, Touro é retratado muitas vezes apenas como um signo que come, dorme e busca prazer.

Pra pensar em Touro gosto de trazer os antigos rituais de agradecimento à terra, rituais de fertilidade onde entregamos parte da colheita e do alimento à terra de onde viemos. Num mundo em que as pessoas estão tão alheias a si mesmas, consumidas pelo tempo da máquina, Touro pode nos dizer sobre a importância da ruminação, do reconhecimento dos tempos, dos processos. A nutrição não é apenas barriga cheia, envolve o processo de digestão, nosso corpo precisa de tempo pra absorver e tornar seu o que vem de fora. O sono não é apenas preguiça, é o momento em que produzimos memória e assimilamos tudo o que vivemos durante o dia. Touro é um signo muito primitivo, nos fala das coisas básicas da vida, a necessidade de estar aqui e não além. Vivemos no mundo da máquina, de pessoas robotizadas, anestesiadas e Touro nos fala da importância de voltar pros sentidos, pro sensível.

Um signo que pode nos ensinar sobre a inteligência do corpo, a inteligência da terra. Escutar o corpo para nos conhecer, conhecer o mundo e estar aqui com outra presença.

Júpiter e Plutão

Cotidianamente sou sequestrada por pensamentos pessimistas. Leio as notícias e por um tempo me sinto mortificada, minha potência e força criativa se paralisam. Muito se fala em fim do mundo… “O pessimismo é reacionário” tem sido uma espécie de mantra pra mim. Preciso sempre me relembrar de que esses discursos apocalípticos têm uma função política: roubar nossa capacidade de imaginar novos mundos, novas economias, novas políticas, novos modos de vida… Muitos mundos já se acabaram antes. O mundo dos meus ancestrais morreu há tempos mas ainda assim a força dos encantados, os cânticos, as danças e o olhar sobre o que é vital e sagrado ainda pulsa e se reinventa em mim e outras indígenas…

Júpiter e Plutão vão fazer conjunção algumas vezes em 2020. Júpiter traz questões sobre o alargamento da visão, a busca por um sentido maior, a capacidade imaginativa, planeta do júbilo e da festa, ele pode nos falar tanto da abundância quanto do transbordamento, perda de limites. Já Plutão é o senhor da vida e da morte, traz questões sobre a finitude, as intensidades, experiências de limiar, fala dos processos de decomposição e composição, do vital e da destrutividade, das potências de fênix. Estamos acostumados a pensar astrologia como uma prática de dar respostas, interpretar, traduzir mapas prontos. Pois proponho usar astrologia como exercício de indagação, de imaginação, levantamento de questões para mapear movimentos vivos. Prática de criação e mapeamento, e não de determinação.

Faço então um convite para usar o encontro entre Júpiter e Plutão para levantar algumas questões. São perguntas-bússola para um mapeamento do vital. Como criar estratégias para vivificar? Como cultivar a vitalidade? Como driblar a mortificação, o anestesiamento, com a força imaginativa? Diante de temas tão gigantes e coletivos como reconhecer o que está ao alcance de minha mão? Como encontrar a potência na vulnerabilidade? Como reconhecer os limites e criar com eles? Como cultivar a fé, a capacidade de confiar no invisível, no vir-a-ser, em outros mundos possíveis? Como enxergar a vida presente nos processos de decomposição?

É possível criar, compor com os resíduos do velho mundo? Com os restos de um velho-eu? É possível produzir adubo com o que morreu? Como fazer um estudo das intensidades? Qual a medida-intensidade entre o veneno e o antídoto? É possível encontrar processos curativos nos processos destrutivos? Como relembrar o festejo, a dança, o canto a um corpo anestesiado? É possível defender a alegria sem negar a dor, sem escapismos? Como cultivar o espírito de criança dentro de nós? Como escutar a pulsação do corpo por trás do anestesiamento?

E você? Quais estratégias você usa para vitalizar? Para driblar a mortificação? Consegue pensar em outras perguntas-questões? Escreva aqui nos comentários, curiosa em saber!

Por aqui tenho tentado dançar mais, com música bem alta na sala, também canto músicas sagradas pela casa sacudindo meu maracá, quando o corpo não consegue reagir vou assistir desenho animado, um filme de comédia, converso e fico em silêncio com os gatos, busco apoiar movimentos sociais que acredito, converso com as amizades e familiares. Escrever também tem sido um antídoto, esse é um texto-antídoto pra mim. Cada vez mais tenho reconhecido a potência da arte e do pensamento. Não a toa essas são as primeiras coisas perseguidas em um regime fascista.

O enterro da Sardinha – Goya

Espiritualidade, Genocídio e os psicopatas da Nova Era

Dia desses recebi por WhatsApp uma mensagem sobre a “evolução planetária” que estamos passando. Como se a pandemia fosse uma etapa de um “plano maior” espiritual para limpar o planeta das mazelas humanas. Nas últimas eleições que colocou esse genocida no poder também vi muitos discursos “espiritualizados” nesse sentido: para uma “nova era” acontecer “infelizmente” algumas pessoas e populações tem que sofrer e morrer. Claro que as pessoas que repetem esse tipo de discurso genocida nunca fazem parte das populações mais prejudicadas. Estão no conforto de seus apartamentos, da sua vida de classe média emanando “good vibes”, vibrando abundância… Muito fácil ter um senso de merecimento e de que o universo conspira a favor quando se está protegido da violência e precariedade. Acho assustador pessoas supostamente espiritualizadas que só querem lidar com o que é bom, belo, leve. Pelo visto a população dormindo na rua, usando o esgoto pra se lavar, não tem tanta evolução espiritual assim para emanar abundância pro universo e receber abundância de volta… Se devemos repensar as mazelas humanas? Com certeza. Se temos que criar outras formas de viver? Sem dúvida. Que devemos aprender algo com essa pandemia? Espero que sim. Que pessoas precisem morrer por causa de um grande plano maior para a evolução do planeta? Sinto muito, essa lógica é muito próxima da lógica nazista que via no genocídio de certas populações um mal necessário, uma “limpeza” para a evolução da humanidade. 

Sempre pensamos nos psicopatas como pessoas malignas e horrorosas que querem prejudicar os outros. Pois psicopatia nada mais é do que falta de empatia. Não reconhecer que outra pessoa é diferente de você, que a tua vivência não serve para toda humanidade, que ignora a condição dos outros. Pois a psicopatia pode ser muito simpática, ter rostinho plácido e dizer gratiluz! Faz tempo que reparo na disseminação dessa “espiritualidade” individualista e neo-liberal que ignora a dor alheia, que acha que os problemas do mundo se resolvem dentro da própria mente e da própria bolha social. “Aqui só entra good vibes” a dor e a miséria dos outros que fique de fora, bem longe da minha bolha de luz… Tich Nah Ahn mestre zen budista vietnamita e ativista social dizia que falar “budismo engajado” era uma redundância porque o budismo busca a iluminação e é impossível se iluminar quando existem pessoas em sofrimento ao seu lado. Penso espiritualidade como política, como nos relacionamos com os outros humanos, com o planeta, com a vida. Não vejo nenhum sentido numa espiritualidade sem empatia. Tem um vídeo muito interessante da pesquisadora Brené Brown que fala da diferença entre empatia e simpatia. Tem no YouTube, recomendo bastante para se imunizar desses discursos genocidas.

Meme por @astro_cats