Farejando Lilith

Fotografia de Francesca Woodman
Fotografia de Francesca Woodman

Prelúdio

terra repousa em si

do repouso brota voz

canta silenciosamente

cantar silencioso da voz da terra que repousa

traz uma semente do céu

semente do céu

cai

cai

cai

vai de encontro ao silêncio

terra encharcada de sangue

surgem rochas as filhas mais antigas

as rochas guardam o cântico silencioso da terra dentro de si

surgem as feras

feras rasgam a terra

saem ensanguentadas a correr e urrar

suor das feras carrega canção silenciosa dentro de si

surgem animais

nos pelos penas dentes escamas órgãos patas

manchas de terra punhado de silêncio

terra aos poucos se faz carne

músculos veias órgãos ossos tripas

nasce primeira mulher

escorre leite dos seios da primeira mulher

leite forma poças poços lagos rios corredeiras oceanos

águas dançam

cada uma a seu ritmo entoam a música terra

despertam o vento

vento sacode os cabelos da primeira mulher

 cabelos entram na terra

saem raízes e árvores

árvores tocam os céus

com o afago das folhas

céus se comovem

choram

sementes gotas caem na terra

povoam ventre das feras animais mulher

todos os ventres carregam o cantar da terra

em todo seu silêncio

  • Julia Francisca, 2012

[ Essa é uma espécie de cosmogonia pessoal, onde o princípio feminino fecunda a si mesmo. Faz parte de um projeto de vida chamado “Mitologias Íntimas”. Eu sempre preciso de um pouco de coragem para trazer essas coisas ao mundo… ]

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