Saturno: guardião do que É

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Arte de Jacob Robert Price

Tempo, tempo, tempo, tempo

ou

Saturno: guardião do que É

“(…) Peço-te o prazer legítimo / E o movimento preciso / Tempo, tempo, tempo, tempo / Quando o tempo for propício / Tempo, tempo, tempo, tempo / De modo que o meu espírito / Ganhe um brilho definido (…)”

Oração ao Tempo, Caetano Veloso.

Saturno na mitologia grega é Cronos, aquele que come os próprios filhos e rege o passar do tempo cronológico. Na Astrologia, Saturno não diz respeito a um tempo abstrato, à retícula do calendário ou ao número do ano em que estamos. Saturno é o tempo se dando na concretude das coisas do mundo, é o tempo inscrito na matéria. A despeito do que dizem deste planeta, ele é extremamente afirmativo e positivo; realidade que se faz realidade a todo momento, o próprio “é” das coisas, a imanência latente.

Como conciliar a ideia de que Saturno é afirmativo e positivo se ele tradicionalmente está ligado ao negativo, ao vazio, à frustração, à inibição e ao constrangimento de ser? Saturno não opera na subtração? Não é ele que diz “menos”? Não é ele que diz “não”? Não é esse planeta que dá o limite, a restrição de todas as coisas?

Jus-ta-men-te.

Cada “sim” de Saturno abre fossos de “não”: frustração. Lidar com o que “é”, com a materialidade e limite das coisas traz em si o atrito e o desgaste. O átomo, que constitui a matéria, é mais vazio do que cheio. Encostar no que é palpável já é lidar com a falta. Há algo nas coisas que, estando, não está lá.

Saturno nos traz a desconfortável notícia de que o mundo não se fez mundo no momento em que nascemos. Ele nos conta que nosso ser se constitui pelo entrelaçamento e desdobramento do tempo-matéria. Meu corpo, meus traços, minha aparência, minhas opiniões, (meus desejos?!), carregam histórias da família em que nasci, da sociedade em que vivo, do momento histórico a qual pertenço. Saturno nos obriga a lidar com a estrutura do mundo, com a organização social, com o passado que consitui o presente, com o que está definido à priori.

Tudo o que é sensível ao toque, que tem contorno e estrutura, pertence ao seu domínio. Talvez essa qualidade tátil/corpórea de Saturno seja um dos motivos para a metafísica ocidental cristã tê-lo condenado ao status de planeta maléfico. Nesse sistema de pensamento, o espírito, elevado, está preso ao corpo, pecador. Só é possível encontrar salvação fora da matéria, em um paraíso de luz. A carne e o mundo material nos condenam ao sofrimento, à dor, à limitação. Punição.

Toda vez que achamos que a mente e o espírito são superiores ao corpo e ao cotidiano estamos reproduzindo essa lógica. Talvez para outros povos, outras culturas, o que entendemos como pertencente à dimensão de Saturno não doa tanto, não machuque tanto assim. Para os zen budistas, por exemplo, não há salvação fora do corpo, o sofrimento está justamente na separação da mente-corpo. A respiração e a postura corporal nos trazem presença e essa presença é o que permite a iluminação. No zen budismo, as coisas simplesmente são, não há respostas transcendentes ou sobrenaturais. Não se busca o que está além e sim viver com presença o aqui-agora.

Saturno pode doer muito quando rejeitamos o aqui-agora. Ele nos obriga a enfrentar a realidade crua e maciça, sem fugas. Ele nos conta que o mundo está aí e precisamos lidar com ele. No entanto, o discurso midiático contemporâneo prega justamente o contrário. Nos diz que basta ter força de vontade individual para que as coisas se realizem e repete frases do tipo “sua vida está nas suas mãos, basta querer”.

Saturno não aceita esse tipo de prepotência. Ele nos obriga a reconhecer que as coisas têm o seu próprio tempo, a perceber que a maturação faz parte dos processos vitais.

Processo   

troche - saturno

Saturno não é necessariamente dolorido, o reconhecimento do que ele representa pode ser vivido como uma benção para pessoas que enfrentam dificuldade para se constituir no mundo. Ele pode ser uma grande mão da vida que encosta na pele e mostra que temos contorno, que somos reais e que podemos fazer alguma coisa com os recursos de que dispomos.

Saturno impõe os limites e são esses limites que nos dão contorno, presença, reconhecimento da pele, do que nos separa do resto. Saturno é o barco que recebemos para fazer a travessia da vida, é a estrutura que garante que a gente não se afogue na imensidão. Mostra o peso das coisas ao mesmo tempo em que revela que o chão é o limite. Podemos cair, mas a terra nos sustenta.

Aliás, “sustentação” é uma palavra que tem muito a ver com Saturno, pois é o Saturno que existe em nós que pode sustentar o peso do nosso corpo. Só podemos andar porque o chão oferece resistência aos nossos pés. É Saturno que nos lapida internamente e garante os recursos para sobrevivermos neste mundo. Ele nos diz que é preciso trabalhar, inclusive para garantir os recursos materiais: dinheiro, casa, alimento…

O temido retorno de Saturno, quando este planeta volta ao ponto em que estava quando nascemos, nada mais é do que o momento de constatação dessas necessidades. Muitas pessoas chegam aos 28/29 anos, no primeiro retorno de Saturno, sem lidar muito bem com as dimensões saturninas da vida: as limitações, os contornos, a importância da frustração, a necessidade de trabalhar para conseguir com tempo e esforço o que realmente desejam… Elas podem sentir o retorno de Saturno como uma pancada, como se a vida as obrigasse a olhar para o que elas evitaram ao longo da juventude. Saturno nos diz: “o tempo passa, o que você está fazendo do seu tempo?”.

Entretanto, o retorno de Saturno também pode ser vivido como o momento de constatação da própria trajetória, de concretização de projetos, de perceber a própria constituição interna, a colheita após uma longa lavoura. Da mesma forma, o segundo retorno de Saturno, em torno dos 56 anos, pode ser vivido tanto como um momento de realização quanto de reconhecimento da passagem do tempo, do começo da velhice.

Pensar que existe uma data pré-estabelecida na qual todas as pessoas vão passar por um “grande evento cósmico” ou levar uma rasteira da vida, é reduzir muito o que esses processos representam e a forma como cada um lida com eles. Se compreendermos Saturno dentro de seu paradoxo podemos reconhecer que ele é tanto a fria rocha quanto o diamante brilhante.

Saturno muitas vezes mascara o que há de mais precioso, para preservá-lo de uma exposição prematura. Só o tempo, o atrito do tempo e o limite das coisas do mundo permitem desgastar a casca dura que se apresenta no começo, lapidar a pedra bruta. Todos os contatos com Saturno envolvem lapidação, engaste, entalhamento; trabalho fino e concentrado para se chegar ao núcleo.

Esse planeta é o guardião da nossa integridade, da nossa verdade interna porque ele põe nossa expressão singular à prova. Depois de tanto tempo de lapidação, de desgaste com a dureza, é possível conquistar este lugar de constituição interna. Podemos nos expressar dentro do que é propriamente nosso. Depois de um longo caminho, quem sabe possamos olhar para nossa trajetória e reconhecer o lugar em que estamos.

A preciosidade que Saturno oferece após esse desgaste do tempo é a conquista da autoridade interna. O trajeto autoriza o saber sobre nós mesmos. Podemos receber a permissão interna de afirmar a própria verdade sem pedir autorização dos outros. De mãos dadas com Saturno podemos dizer que o tempo passou e que a gente re-conhece o próprio percurso. A partir daí Saturno pode deixar de ser inimigo para se tornar o mestre-tempo que é.

Na mitologia, Saturno-Cronos come os próprios filhos. Ele é tanto criador quanto devorador. Por isso ele está ligado com o reconhecimento da passagem do tempo, da nossa finitude, da velhice e da morte. A Morte, no entanto, é apenas a face oculta da Vida. É o vazio invisível de onde todas as coisas podem surgir. Se o corpo-mente é um só, a Vida-Morte também.

Depois desse longo processo com Saturno, se fizermos as pazes com sua dimensão paradoxal, talvez poderemos receber o pagamento deste árduo trabalho que ele impõe. Reconhecer nossa finitude, os limites impostos pelo tempo, pode ser a chave para deixar de temer a Morte-Vida. Afinal, esse desgaste da matéria é o que permite a roda do tempo girar.

Quem sabe assim os processos pessoais deixem de se apresentar com tanta dureza. A experiência individual possa deixar de ser um fardo e se revelar como caminho/percurso que dá sentido para nossa existência. Então, o mestre Tempo talvez nos ajude a expressar com maestria o nosso “idioma pessoal”, a nossa contribuição para esta vida-passagem. Como diz o poeta, “de modo que o meu espírito ganhe um brilho definido”.

– Julia Francisca

[ Para conhecer mais Saturno, ler “Saturno” de Liz Greene.]

Sol em Leão

Desenho do artista argentino Troche.
Desenho do artista argentino Troche.

Amanhã o Sol entra em Leão.

Aquele que pergunta “quem sou eu”. / De olhos voltados para o coração. / Na eterna busca do inédito em nós.
– Julia Francisca

“O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa antes a outras pessoas. (…) Ninguém pode aconselha-lo e ajuda-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele se estende até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. (…)

E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida.”

Rainer Maria RILKE. Cartas a um jovem poeta.

“Eu também não acredito em signos”

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Foi o que respondi pra ela. A Astrologia é apenas um meio de simbolizar nossa passagem pelo mundo. Signo pra mim não é uma questão de crença ou fé. Os signos são imagens, são uma construção coletiva que fez sentido para algumas culturas e que continua a fazer sentido para algumas pessoas na contemporaneidade.

Se abrir sentido, pois bem, se não, que abra em outras perspectivas de mundo, outras concepções. Penso que os signos podem servir apenas como chaves para acessarmos algo que nos diz respeito, mas ainda não tem nome. A Astrologia não pode ser autoritária, a ideia dos signos é apenas uma ponte para que a pessoa se reconheça e entre em contato com suas próprias mitologias.

O princípio do signo é infinito e suas possibilidades também. Cada Sol em Aquário é uma expressão própria de Sol em Aquários. Por isso a leitura do mapa astral deve sempre estar profundamente ancorada na experiência pessoal de cada um. Nessa perspectiva não há uma leitura à priori, o mapa é tão vivo quanto a própria pessoa.

Podemos pensar apenas em possíveis pontos de partida para este passeio que a Astrologia nos convida. Viajar pelas imagens, representações, histórias, mitos, dizeres, para nos aproximarmos um pouco mais de nós. Para que a gente possa fazer o exercício de dar sentido para nossa caminhada e não assimilar sentidos dados.

– Julia Francisca é astróloga e busca uma perspectiva poética e imagética da Astrologia.

Oficina – A poética dos Signos e os Quatro Elementos

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A poética dos Signos e os Quatro Elementos

Podemos pensar a Astrologia como uma linguagem que propõe leituras, escritas e traduções do espírito de cada tempo. Os signos e os quatro elementos podem ser encarados como chaves para ler essas diferentes qualidades simbólicas e narrativas.

Por sua vez, a poesia é uma linguagem que explora a dimensão invisível presente no visível. Escuta os paradoxos do ser-não-ser e nos abre para uma leitura ontológica da vida.

Esta oficina propõe a articulação entre o universo da Literatura e da Astrologia enquanto uma linguagem poética. Para nos aproximar das dimensões imagéticas dos quatro elementos e dos signos, os encontros contam com o intercâmbio de diferentes linguagens (Artes Visuais, Cinema, Literatura…).

com Julia Francisca, astróloga, artista plástica e educadora

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Sábados, das 15h00 às 18h30
22.ago – FOGO: Áries, Leão e Sagitário
19.set – TERRA: Touro, Virgem e Capricórnio
24.out – AR: Gêmeos, Libra e Aquário
21.nov – ÁGUA: Câncer,  Escorpião e Peixes
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07 vagas / Investimento: R$120 por encontro
Local: 10min. do metrô Consolação, São Paulo-SP.
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Inscrições até 10/08 pelo e-mail: juliafrancisca@tramaceleste.com.br

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PROGRAMA DO CURSO 

Microsoft Word - programa do curso_divulg.docx

Microsoft Word - programa do curso_divulg.docx

Programa do Curso em PDF

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Notas sobre o Ascendente

vivian maier

“É verdade que depois dos 30 a gente ‘vira’ o Ascendente?”

Essa é uma pergunta que muitas pessoas me fazem e que é importante esclarecer. Quando você diz “eu sou geminiana”, por exemplo, isso significa que o Sol estava no signo de Gêmeos no momento em que você nasceu. O Ascendente, por sua vez, é o ponto em que o Sol nasce, ele é definido pelo horário do seu nascimento. Se a gente pensar que o mapa natal é a fotografia do céu no momento em que você nasceu, não faz sentido pensar que o seu signo solar possa mudar trinta anos depois. Afinal, ele sempre terá estado em Gêmeos no momento do seu nascimento. Eu não conheço nenhuma referência bibliográfica ou histórica que justifique esse mito. Recentemente fiz essa pergunta à Angélica Ferroni, pesquisadora em história da Astrologia, e ela também não conhecia nenhuma referência sobre isto.

No entanto, muitas pessoas sentem que ficam mais parecidas com o signo de seu Ascendente ao longo da vida. Isso é porque o modo como o Ascendente se expressa passa por transformações, assim como todo nosso mapa.

O que o Ascendente representa?

O Ascendente é o ponto de nascimento do Sol, por isso ele está associado com o nosso aparecer no mundo, nosso surgimento. O Ascendente é algo que de alguma forma chega antes de você, é a primeira impressão de alguém. Por isso, ele também diz respeito aos nossos gestos, nossa aparência, tom de voz, semblante, etc.

Liz Greene, astróloga e psicóloga junguiana, diz que o Ascendente é como a fachada da casa, nossa primeira camada exposta para o mundo. Muitas vezes as outras pessoas têm mais consciência do nosso Ascendente do que nós mesmos e o Ascendente pode aparecer como uma máscara social, nossa casca mais superficial.

Trajetória com o Ascendente

Quando falamos em máscara social ou casca externa, normalmente isso tem uma conotação negativa, mas constituir essa casca é inevitável e fundamental para nosso desenvolvimento. Essa casca protege nossa interioridade e permite que a gente possa trocar com o mundo e as pessoas sem expor a nossa “parte mole”. Por isso, o Ascendente também é um lugar de proteção, que faz a mediação com o que está fora de nós.

Muitas pessoas têm um certo mal estar com o signo do Ascendente, porque não se sentem representadas pela expressão daquele signo. Às vezes, a primeira impressão, o que os outros veem na gente, não corresponde à imagem que temos de nós mesmos e o Ascendente pode parecer uma roupa que nós vestimos sem querer e que não diz respeito a quem somos de verdade.

Entretanto, nós temos uma trajetória com nosso próprio Ascendente assim como todos os outros elementos de nosso mapa. Apesar do mapa natal ser “estático” (os signos, os planetas, etc., não vão mudar de posição ao longo do tempo), penso que o mapa está em constante movimento, assim como nossa própria vida. Temos um caminho a percorrer que não está escrito à priori, nossa vida se desdobra nesse tecido desconhecido do tempo. Cada pessoa é um evento inédito, que nunca irá se repetir, assim, as consequências e possibilidades daquele mapa natal são infinitas. Apenas a trajetória de cada um dará sentido para as questões que se desenharam naquele nascimento.

Desdobramentos

Nesse caminho, é possível que com a maturidade a gente tenha mais consciência desse nosso aparecer no mundo. Se isso acontecer, o Ascendente pode deixar de se expressar apenas como uma máscara que colocamos para esconder o que está por dentro. Podemos reconhecer o olhar dos outros como algo que dá o parâmetro de nós mesmos, a referência externa que permite nos constituir. Podemos encontrar no Ascendente um contorno, uma ponte pro mundo, que possibilita que as trocas com o entorno sejam feitas com inteireza. A gente pode reconhecer no signo do Ascendente nosso modo de chegar, de se apresentar, de se colocar no mundo.

Por isso, algumas pessoas sentem que se tornam mais próximas do signo do Ascendente ao longo da vida. Nesse sentido, o Ascendente não toma o lugar do signo solar, mas se transforma em um aliado do nosso Sol, da nossa expressão singular.

– Julia Francisca, junho/2015.

[A fotografia é de Vivian Maier (1926-2009), fotógrafa nascida nos E.U.A. que tem um trabalho incrível de auto retratos e fotografia de rua. Vale a pena pesquisar o trabalho dela.]