Ano Novo

ano novo editado

“O vento sopra sobre o lago e agita a superfície da água.

Assim, do invisível manifestam-se efeitos visíveis.”[i]

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O Ano Novo tem um efeito estranho sobre mim. Parece que quando o ano está terminando o tempo começa a ficar suspenso, dilatado.

Eu sempre uso agendas, as de papel mesmo, gosto do contato físico com esse livrinho do tempo, de rabiscar, passar as páginas… Quando tenho em mãos uma nova agenda, de um ano que ainda está por vir, tenho o costume de folhear as páginas em branco até os últimos dias do ano que ainda não começou e me pergunto como minha vida terá se desdobrado até lá.

Fim de ano é um período em que esse sentimento de porvir, de vir-a-ser, fica mais latente para mim (o Vazio incrustado em tudo o que É silenciosamente se anuncia). “Ano Novo” é algo que só existe enquanto expectativa, é um termo que traz em si o não-é, o que ainda não se realizou, mas que existe invisível enquanto potencialidade.

“Ano Novo” então, é um conceito que dá nome a algo que ainda não se manifestou, é um nome para o que não pode ser nomeado, ainda não tem face, está encoberto, mas que lateja em silêncio em algum lugar (fora e dentro de nós).

Às vezes eu consulto o oráculo do I Ching, de maneira autodidata, informal. Esses dias, ao perguntar sobre o ano que virá, saiu para mim o hexagrama Verdade Interior.

“O ideograma Fu (Verdade) é, de fato, a representação da pata de uma ave sobre um filhote. Isso sugere a ideia de chocar. O ovo é oco. O poder vivificante do luminoso deve agir do exterior, mas é preciso que haja um núcleo de vida no interior para que ela possa ser despertada.”[ii]

Essa passagem (se é que a entendi), diz sobre este lugar vazio e oco de onde a vida, o novo pode despertar. O novo tempo, o amanhecer de um novo ano, nos ilumina e faz germinar algo que já estava em nosso interior.

Acolher, habitar e sustentar este lugar vazio dentro da gente, lugar de abertura e de não-ser, pode ser insuportável para nós, ocidentais, contemporâneos, capitalistas, ensinados apenas a olhar o visível, escutar o que está dito e preencher, preencher, preencher tudo que é silêncio e não-É.

Nessa época do ano, muitas pessoas procuram a Astrologia em busca de previsões, em busca de respostas e preenchimentos para esta angústia de futuro, essa angústia de indefinição.

Para mim, a Astrologia nesses momentos faz sentido apenas como forma de escutar isso que não está dito, de repousar nesse invisível que está se costurando dentro e fora de nós. A Astrologia, pode ser esse exercício de cartografar o que está (in)surgindo, de ouvir isso que ainda não brotou, mas que já está ali, em gestação.

Dessa forma, a leitura do mapa astral e dos trânsitos nessa época do ano, antes de preencher e dar respostas, pode ser uma prática de se reposicionar perante a própria vida e acolher o fluxo, o movimento desse nosso eterno vir-a-ser.

É como se pudéssemos, assim como as pacientes aves-mães, repousar sobre o oco ovo e chocar esse ano novo que se anuncia dentro e fora de nós.

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Julia Francisca

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Feliz Ano Novo a todas as pessoas que acompanham o blog e a página do facebook, a partir do ano que vem haverá postagens toda quinta-feira.

Acompanhe e compartilhe com as amizades =)

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[i] I Ching: o livro das mutações. Pg. 185. Ed. Pensamento

[ii] idem