Áries em percurso

O movimento dos signos

Podemos pensar o Zodíaco como um circulo cromático.

escala signos

        Cada signo tem sua cor própria, porém carrega um pouco do signo anterior, enquanto se abre para o signo seguinte. O movimento desse círculo começa em Áries, completa uma volta inteira em Peixes e continua seu curso numa eterna espiral.

        Além desse caminho dentro do Zodíaco, os signos também têm seu movimento interno: eles podem ser olhados como uma força viva que traz seus próprios desdobramentos e passagens.

        O texto a seguir é fruto de pesquisa desenvolvida para a oficina “O movimento dos signos” realizada em março de 2014 e procura olhar os signos a partir da noção de percurso.

aries11

aries22

aries33

Clique aqui para abrir o arquivo em pdf aries


Uma visita a Plutão-dentista

plutao dentista

 

 

            Os Símbolos Sabeus são imagens atribuídas a cada grau do zodíaco, no total são 360 imagens, trinta para cada um dos doze signos. Ao olhar o mapa astral de uma pessoa é possivel encontrar uma imagem para cada um dos planetas a partir do grau e do signo em que estão situados. Assim, a imagem para Plutão no meu mapa, que está a 09 graus de Escorpião, é “um dentista em ação” [1]. Essas imagens muitas vezes abrem novos entendimentos de como cada planeta aparece para cada pessoa.

 

 

Meu Plutão é um dentista em ação.

Como acabei de voltar do dentista, meu sentimento em relação a isso está bem fresco. Bom, quando eu era criança tive muitas cáries e isso me rendeu muitas visitas ao dentista. Eu detesto ir ao dentista. Primeiro, sinto muita dor. Tomo muita anestesia e continuo sentindo dor. Segundo, eu tinha rinite crônica, então quando estava com crise não conseguia respirar pelo nariz. Além do mal estar de toda a situação, eu ficava sufocada, tentando respirar pela boca que estava cheia de algodão, broca, sugador de saliva… Terceiro, o ambiente asséptico do dentista me aflige, acho tudo muito frio, técnico, inumano. Você chega lá e ninguém te explica o que vai acontecer.

 

Quando levo meu gato ao veterinário, por exemplo, o veterinário conversa com ele, faz carinho, explica a situação, tenta tranquilizá-lo. Mas parece que os médicos ainda não entenderam o que os bons veterinários pelo visto já sabem. Chego no dentista e sei que vou tirar uma cárie, mas tem um monte de procedimentos ali que não faço ideia do que se tratam, não sei que produtos são aqueles na minha boca, para que servem, etc. Eu preciso ter confiança que apesar da dor, do mal estar, daqueles instrumentos sinistros, do barulho de broca no meu ouvido, tudo aquilo é para meu bem. E eu não tenho muita confiança em médicos, nem na medicina, então sempre fico naquela tensão…

 

Tá, mas o que isso tem a ver com Plutão?

Vou tentar explicar. Sabe quando parece que a broca do dentista toca diretamente o seu nervo? Nesse momento, você sente aquele frio na espinha e seu corpo inteiro é tomado por um arrepio sinistro, a cabeça lateja, os dedos contraem, as tripas reviram… Antes eu só conseguia sentir o dentista-Plutão dessa forma. Mas dessa última vez que fui ao dentista comecei a olhar a coisa sob outros ângulos. Além de me infligir dor e mal estar, o dentista faz a limpeza da boca e tira as cáries – que, se continuassem lá, com o tempo me causariam mais dor ainda e possivelmente a perda dos meus dentes. A boca é o começo de todo o processo digestivo, pela boca recebemos o alimento e a água para nos nutrir e através da boca falamos, cantamos, assobiamos e emitimos todo tipo de sons fundamentais para nossa comunicação.

 

Mas o que isso tudo tem a ver com Plutão?

Num primeiro momento Plutão é pura dor no nervo, que lateja e perturba. Plutão, na minha opinião, é o mais corporal dos planetas transpessoais. Diferente de Urano que é impessoal e distante e Netuno que está sempre envolto em brumas e sons indistinguíveis, Plutão parece atingir direto no nervo, nas tripas, na carne. Camila Jabur diz que Plutão tem a potência da vida e da morte. Isso me faz pensar que Plutão rege os processos mais fundamentais da existência e tem a intensidade de um parto, sejam partos para a vida ou partidas em direção ao não-ser. Assim como o dentista, Plutão faz muitas perfurações, mas as suas perfurações perturbam toda a ordem e sentido do que está dado. Ele abre abismos profundos. Abismos que carregam teias de destrutividade que atravessam gerações. Nessas aberturas, Plutão pode trazer a herança de sofrimentos passados, esquecidos e nunca ditos. Mas resumir sua ação à dor parece tão infantil quanto não querer ir ao dentista por medo da broca.

 

Hoje no dentista tive que tomar muita anestesia e por isso fiquei algumas horas sem sentir minha língua, sem poder falar direito e com dificuldade até para tomar água. A dentista falou para ter cuidado na hora de comer para não morder minha língua nem meu lábio sem querer. Fiquei pensando naquelas pessoas que têm uma síndrome que faz com que elas não sintam dor. Fui pesquisar e encontrei essas informações na Wikipédia: “(…) Elas ficam muito mais sujeitas a sofrer acidentes porque param de registrar qualquer aviso de dano nos tecidos do corpo, como cortes ou queimaduras. (…) Sem o aviso de perigo que a dor proporciona às pessoas comuns, a maioria dos doentes com a síndrome de Riley-Day tende a morrer jovem, antes dos 30 anos, por causa de ferimentos.”

 

Com isso fico pensando algumas coisas. Plutão dói. Por um lado pode ser tenebroso, por outro essa dor pode ser redentora. Entrar em contato com essa dor permite mergulhar numa trama antiga e entender o percurso de um sofrimento que não é apenas individual. Ser perfurado pela broca de Plutão possibilita tocar processos pulsantes da existência, que regem necessidades vitais do ser. Plutão nos leva a abismos profundos, mas também nos trás de volta à superfície com a mesma força que nos encobriu.

 

Sempre pensei que nascer deve ser mais difícil que morrer, pois na gestação estávamos num lugar muito confortável, protegido, onde o alimento simplesmente chegava. Ao nascer, somos jogados numa situação extremamente precária, onde dependemos integralmente do outro para sobreviver. Isso tudo é muito brutal[2]. Mas a fragilidade de um bebê comove, acessamos algo muito primordial quando nos conectamos com isso. O bebê frágil é belo e é bela nossa fragilidade que pulsa quando olhamos pra ele. A consciência dessa fragilidade talvez seja o maior presente que Plutão pode nos dar. A potência é dele, Senhor da Morte e da Vida, não nossa. Perante Plutão somos apenas frágeis recém-nascidos absortos com a precariedade e a beleza de existir.

 

Mês que vem vou no dentista de novo, dessa vez só para fazer limpeza. Continuo sem gostar de ir ao dentista, mas agora passo fio dental todos os dias, o que não fazia antes. Quando passo o fio dental percebo que o dente tem uma estrutura muito forte, estrutura que compartilhamos com muitos outros animais. Enquanto escrevo isso lembrei de um sonho que tive um tempo atrás. Meu dente caia da boca e caia na rua. Ficava aflita procurando meu dente na sujeira do meio fio. Algo em mim sabia que perder o dente era sinônimo de morte. Então percebia que aquele podia ser um dente-de-leite que havia continuado ali sem que eu notasse.

Nessa hora, acordei.

 

 

 

 

 

 

Sobre Plutão:

– ARROYO, Stephen. Astrologia, Karma e Transformação. Cap IV: chaves para a transformação. Parte II: Plutão.

– SASPORTAS, Howard. Os deuses da mudança: uma nova abordagem da Astrologia. Parte Quatro. Trânsitos de Plutão.

 

 

 

 

 

 

 

[1] Para saber sobre os Símbolos Sabeus: RUDHYAR, Dane. An Astrological Mandala: the cycle os transformations and its 360 symbolic phases.

[2] Plutão no meu mapa está localizado na casa 1, a casa do Ascendente e do nosso aparecimento no mundo. Sinto que com Plutão ali, é como se toda essa potência se apresentasse antes de mim, o que me faz sentir extremamente vulnerável e traz imenso medo de (não)ser vista. Com Plutão na casa 1 é como se o simples fato de ter nascido já fosse uma experiência violenta por si só.