Elemento Fogo

O elemento fogo é o elemento masculino por excelência na astrologia. Como comentei no último texto sobre a água, a astrologia é uma linguagem amoral que cria significados a partir da observação da natureza. No entanto, as leituras astrológicas muitas vezes estão impregnadas da moral da época. E claro, também do machismo. Assim os signos de fogo (Áries, Leão, Sagitário) muitas vezes são tratados como os representantes da masculinidade tóxica: violentos, egocêntricos, mimados, sem empatia ou dimensão das outras pessoas, presos nas próprias fantasias de grandeza, incapazes de lidar com frustração…

De novo proponho um retorno ao elementar, como esse elemento aparece na natureza? O fogo é quente e luminoso, com ele podemos cozinhar a comida, nos esquentar no inverno, acender uma vela para enxergar no escuro. O fogo é vibrante, intenso, porém não tem corpo, é impossível segurar ou prender o fogo, o seu movimento é de sempre seguir em frente e sempre apontar para o alto. O fogo também queima e consome, está ligado ao princípio vital da criação e da destruição – um não existe sem o outro. É símbolo da chama do espírito, quando morremos ela se apaga. O Sol é uma bola de fogo que permite a vida no planeta e o amanhecer nos lembra sobre “a eterna novidade do mundo”, o novo persiste, a luz se apresenta depois de todas as noites.

Vivemos numa cultura que lida muito mal com a agressividade, um importante tema do fogo. Ou ela é vista como algo ruim, que deve ser negada e abafada ou explode violentamente, se afirmando de maneira fálica, subjugando. São dois lados da mesma moeda. É preciso produzir um saber e uma prática sobre o conflito, sobre as divergências. O fogo é o primeiro elemento da astrologia porque sem o corte, sem o calor, não se produz o novo. O atrito garante que exista diferença, mostra que nem tudo é igual, nem deve ser. Penso agressividade como um princípio vital que nos permite produzir o corte, dizer não e (principalmente) dizer sim, movimentar e criar, se diferenciar do resto. Por isso o fogo é o elemento que fala da singularidade.

Singular não é uma identidade fechada fálica “eu sou assim e pronto”, singular é a potência que traz o novo, de imaginar o que ainda não foi visto, é um lugar de abertura. Onde está o brilho e onde está o opaco na sua vida? Quais vias o calor encontra pra se manifestar? Ou é apenas explosão – ou implosão? O que te move, aquece, o que faz vibrar? .

J. M. W. Turner, paintings of the Burning of the Houses of Parliament (the Houses of Lords and Commons) beside the River Thames on 16th October, 1834 (III)

Elemento Água

O elemento água tradicionalmente representa o feminino. A astrologia é uma linguagem amoral que parte dos elementos da natureza para produzir significados. No entanto a moral de cada época sempre se infiltra nas leituras astrológicas. Com isso o elemento água ao longo do tempo ficou submetido as mesmas leituras machistas e patriarcais criadas sobre “o feminino”. Elemento dos afetos, dos vínculos e da subjetividade o elemento água ficou identificado com o irracional, a loucura, a histeria, a compulsão, o sentimentalismo. Como se a água fosse um elemento passivo, sem linguagem e sem capacidade de produzir conhecimento. Câncer e Peixes muitas vezes são retratados como signos idiotas que só sabem chorar, Câncer ainda por cima ficou reduzido a imagens da família pequeno-burguesa e do mundo doméstico. Escorpião por sua vez virou símbolo da loucura e da sexualidade desenfreada, retratado muitas vezes como se fosse uma prostituta maligna. 

Por isso antes de pensar nas simbologias, gosto de remeter aos elementos na natureza. A água é o elemento que mata a nossa sede, sobrevivemos muito mais tempo sem comida do que sem água. A água limpa e renova. Dos quatro elementos ele é o mais metamórfico, pode ser líquido, gasoso e sólido. A água sempre encontra passagem, sempre encontra o seu caminho e se guia pelo centro da terra, pela gravidade, sempre sabe qual direção tomar (daí as leituras sobre a intuição da água). A água é o elemento que tem a maior capacidade erosiva e que provoca as maiores transformações na paisagem. Ela dissolve montanhas, cria cânions e cavernas, fura pedras, alaga florestas e cidades. A força da água é descomunal, ela produz tsunamis, maremotos, erupções, alagamentos, chuvas de granizo, geadas… A água que existe hoje é a mesma água que os dinossauros tomaram, por isso é um elemento associado às imagens de ancestralidade, do primordial e com o selvagem e instintivo.  Tem água no nosso corpo, no ar, na maioria dos objetos e também nos outros corpos. Gosto de imaginar que podemos vibrar com essas correntezas de água que estão na gente e circulam ao nosso redor. É assim que a água se comunica, com sua receptividade e porosidade ela se afeta com o que está ao redor e assim pode saber sobre os outros seres. É uma linguagem afetiva que produz conhecimento pelo sensível e não pela dominação do “racional” sobre os objetos. É receptiva e ativa ao mesmo tempo, é capaz de violentos transbordamentos se não encontra saídas. Antes de uma astrologia interpretativa sugiro uma astrologia investigativa. A quais imagens a água nos remete? Como os fluxos afetivos circulam? Quais vazantes encontramos? Onde está úmido, nutritivo e onde está seco? Onde está represado, criando lodo? Com o que criamos liga, conexão?

Em breve vou lançar o curso online dos ateliês de astrologia e a proposta é partir dos quatro elementos para criar um mapeamento sensível, pescar imagens e palavras, produzir textos e composições. Enquanto isso vou falando um pouco sobre os elementos por aqui.

água – ha bun shu