Notas sobre o Ascendente

vivian maier

“É verdade que depois dos 30 a gente ‘vira’ o Ascendente?”

Essa é uma pergunta que muitas pessoas me fazem e que é importante esclarecer. Quando você diz “eu sou geminiana”, por exemplo, isso significa que o Sol estava no signo de Gêmeos no momento em que você nasceu. O Ascendente, por sua vez, é o ponto em que o Sol nasce, ele é definido pelo horário do seu nascimento. Se a gente pensar que o mapa natal é a fotografia do céu no momento em que você nasceu, não faz sentido pensar que o seu signo solar possa mudar trinta anos depois. Afinal, ele sempre terá estado em Gêmeos no momento do seu nascimento. Eu não conheço nenhuma referência bibliográfica ou histórica que justifique esse mito. Recentemente fiz essa pergunta à Angélica Ferroni, pesquisadora em história da Astrologia, e ela também não conhecia nenhuma referência sobre isto.

No entanto, muitas pessoas sentem que ficam mais parecidas com o signo de seu Ascendente ao longo da vida. Isso é porque o modo como o Ascendente se expressa passa por transformações, assim como todo nosso mapa.

O que o Ascendente representa?

O Ascendente é o ponto de nascimento do Sol, por isso ele está associado com o nosso aparecer no mundo, nosso surgimento. O Ascendente é algo que de alguma forma chega antes de você, é a primeira impressão de alguém. Por isso, ele também diz respeito aos nossos gestos, nossa aparência, tom de voz, semblante, etc.

Liz Greene, astróloga e psicóloga junguiana, diz que o Ascendente é como a fachada da casa, nossa primeira camada exposta para o mundo. Muitas vezes as outras pessoas têm mais consciência do nosso Ascendente do que nós mesmos e o Ascendente pode aparecer como uma máscara social, nossa casca mais superficial.

Trajetória com o Ascendente

Quando falamos em máscara social ou casca externa, normalmente isso tem uma conotação negativa, mas constituir essa casca é inevitável e fundamental para nosso desenvolvimento. Essa casca protege nossa interioridade e permite que a gente possa trocar com o mundo e as pessoas sem expor a nossa “parte mole”. Por isso, o Ascendente também é um lugar de proteção, que faz a mediação com o que está fora de nós.

Muitas pessoas têm um certo mal estar com o signo do Ascendente, porque não se sentem representadas pela expressão daquele signo. Às vezes, a primeira impressão, o que os outros veem na gente, não corresponde à imagem que temos de nós mesmos e o Ascendente pode parecer uma roupa que nós vestimos sem querer e que não diz respeito a quem somos de verdade.

Entretanto, nós temos uma trajetória com nosso próprio Ascendente assim como todos os outros elementos de nosso mapa. Apesar do mapa natal ser “estático” (os signos, os planetas, etc., não vão mudar de posição ao longo do tempo), penso que o mapa está em constante movimento, assim como nossa própria vida. Temos um caminho a percorrer que não está escrito à priori, nossa vida se desdobra nesse tecido desconhecido do tempo. Cada pessoa é um evento inédito, que nunca irá se repetir, assim, as consequências e possibilidades daquele mapa natal são infinitas. Apenas a trajetória de cada um dará sentido para as questões que se desenharam naquele nascimento.

Desdobramentos

Nesse caminho, é possível que com a maturidade a gente tenha mais consciência desse nosso aparecer no mundo. Se isso acontecer, o Ascendente pode deixar de se expressar apenas como uma máscara que colocamos para esconder o que está por dentro. Podemos reconhecer o olhar dos outros como algo que dá o parâmetro de nós mesmos, a referência externa que permite nos constituir. Podemos encontrar no Ascendente um contorno, uma ponte pro mundo, que possibilita que as trocas com o entorno sejam feitas com inteireza. A gente pode reconhecer no signo do Ascendente nosso modo de chegar, de se apresentar, de se colocar no mundo.

Por isso, algumas pessoas sentem que se tornam mais próximas do signo do Ascendente ao longo da vida. Nesse sentido, o Ascendente não toma o lugar do signo solar, mas se transforma em um aliado do nosso Sol, da nossa expressão singular.

– Julia Francisca, junho/2015.

[A fotografia é de Vivian Maier (1926-2009), fotógrafa nascida nos E.U.A. que tem um trabalho incrível de auto retratos e fotografia de rua. Vale a pena pesquisar o trabalho dela.]